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Nota de Apoio ao NNNE da UFRB (AKOFENA)

 

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Nós da UNIAPP viemos através desta nota tornar público nosso apoio ao Núcleo de Negras e Negros Estudantes da UFRB (Núcleo Akofena) na luta que o mesmo está travando para manter o direito, a nós tão caro, de auto-defesa.

 

Tomando ciência do ocorrido na “Cabana do Pai Tomaz”, em 25 de Junho, na cidade de Cachoeira, durante a festa de comemoração da formatura de Clissio Santana e Fred Igor através do blog AKOFENA, nós podemos perceber o quanto a situação, infelizmente, é corriqueira aonde a alegação de ter cometido excessos tenta ser amenizada de responsabilidade pelo suposto “estado de embriaguez”. A ideia que permeia a cabeça de muitos de que a Mulher Negra estará à disposição, para além de sua vontade, para satisfazer os desejos dos homens é uma máxima desta sociedade racista que ainda nos persegue e que não podemos mais aceitar.

 

Quanto a acusação de “racismo ao contrário” nos abstemos de ter que explicar, mais uma vez, o absurdo desta afirmação que traz em si uma contradição de termos.

 

A necessidade em se pautar de maneira corajosa pelas Pessoas Pretas, e por todas aquelas que se auto-intitulam contra o racismo, questões como este acontecimento aonde “não bastasse o fato de invadir a festa onde se encontrava parentes e amigos dos dois formandos, o jovem agressor passou a se esfregar em Zilda, fazendo menção de agarrá-la” é uma necessidade de extrema importância para frear este e outros posicionamentos que o povo Preto continua sofrendo nos dias atuais.

 

Com isto além de nos solidarizarmos pedimos, que todas aquelas mentes que entendem que não podemos aceitar sermos criminalizados em nossos momentos de resistência, que o levantar de nossas vozes não só é algo que queremos mas que nos é urgente e necessário, para engrossarem as fileiras desta luta por Dignidade.

 

 

 

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Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Mosiah Garvey

Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Mosiah Garvey, Três paradigmas afro-americanos para uma análise afro-brasileira.

Por Fábio Mandingo

Apresentação

O presente momento vivido pela sociedade brasileira, no que diz respeito ao discurso e à prática oficiais e civis sobre a questão racial, assemelha-se em muitos aspectos, à situação experienciada nos Estados Unidos da América durante o período imediatamente posterior à Guerra Civil e à Abolição da Escravidão, e que se estende até os anos que se seguiram à 1ª Guerra Mundial, quando se consolidaram as leis referentes à segregação racial em grande parte do país, marcando a opção do estado americano por manter um regime político de discriminação e supremacismo branco oficialmente referendado, dando fim a uma época de efervescência política e cultural no qual o discurso igualitário reminiscente da guerra civil, possibilitou ao negro americano o vislumbre de uma sociedade onde os caminhos da comunidade pudesse ser determinado por sua competência e por seus próprios anseios.

Com pelo menos 130 anos de atraso, somente agora a sociedade e o estado brasileiro começam a discutir a implementação de políticas específicas voltadas para a integração do povo negro à sociedade, partindo da compreensão de um processo histórico marcado pelo prejuízo e desfavorecimento conseqüentes do passado colonial escravista, propondo-se a buscar meios para minorar os efeitos negativos dos 350 anos de exploração econômica escravocrata e da marginalização posterior a uma abolição desassistida.

De modo semelhante ao período americano citado, podemos atualmente assistir à florescência de diversos grupos e tendências de movimentos negros no Brasil, que se entendem aptos para atuarem enquanto condutores deste processo de transformação, de modo a garantir a compreensão do contingente populacional negro como portador de uma identidade histórica-cultural, ressaltando a importância de sua contribuição pra a formação do país. Homens e mulheres, jovens e velhos negros, unem-se no esforço de elaborar as políticas capazes de capitanear a construção de uma sociedade racialmente includente,fortalecida pelo respeito à diversidade étnica, atenta à riqueza das diferentes contribuições fornecidas pelos grupos raciais que formam a sua população.

Elaboração de um novo tempo, ou a intensificação de antagonismos que precedem as épocas totalitárias? Tendo em vista que toda a busca por reformas sérias e reais conduzem à explicitação das contradições imanentes à sociedade capitalista, demandando daqueles que são privilegiados por sua estrutura uma reação proporcional à força dos anseios populares, ficamos atentos aos ensinamentos da história, que nos mostra a tendência à manutenção das estruturas de dominação constituídas, e a busca por eliminação, adaptação e/ou estagnação das forças transformadoras surgidas no ventre desta sociedade.

Nesse sentido, o presente trabalho visa apresentar ( além de breves biografias coligidas a partir das obras referenciais) as proposições de três importantes líderes afro-americanos, Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Mosiah Garvey, elaboradas no contexto do período pós-abolição e concernentes a três diferentes vias de integração do povo negro na sociedade americana, examinar o contexto em que essas proposições foram colocadas, suas repercussões e conseqüências, bem como, abrir a possibilidade de uma análise comparativa à atual realidade racial brasileira.

Sonhos, Ilusões e Frustrações.

A Guerra Civil Norte-Americana, que durou de 1860 a 1865, colocou frente à frente no campo de batalha, duas concepções políticas antagônicas e aparentemente inconciliáveis. Para além do caráter puramente bélico e de disputa por hegemonia, próprios de qualquer guerra, a guerra civil americana pretendia encarnar o embate entre eras históricas opostas, representadas na estagnação conservadora do sul escravocrata, confrontada com a pressão industrializante do norte e suas tendências democratizantes, próprias das contradições intestinas de um capitalismo nacionalista forte, em processo de implementação.

A sociedade sulista se assentava na imutabilidade de um sistema agrário de grandes propriedades, no poder patriarcal extremo, e na mão-de-obra escrava. Os estados algodoeiros do sul, foram os que mais receberam africanos escravizados durante o período do tráfico, formando o que se chamou de o “ Cinturão Negro” , em referência ao grande contingente populacional africano. Essa peculiaridade étnica vai determinar todas as facetas dessa sociedade, preocupada em preservar o status quo de supremacismo branco inquestionável, que se reflete como pressão, através de todas as inter-relações sociais. A mão-de-obra negra foi a principal geradora da riqueza do sul, pilar sobre o qual as famílias brancas tradicionais mantiveram um padrão de vida senhorial, dedicado à política e ao ardor religioso, bem como, a reforçar todo o aparato ideológico, responsável pela justificação da hierarquia racial, além de introjetar a “normalização” dessa hierarquia. O discurso oficial sulista, referendava a perfeição de sua imobilidade e a segurança de uma sociedade na qual as coisas ” estavam em seus devidos lugares”.

A modernização industrial em desenvolvimento no norte ( e com pretensões de se estender por toda a União), representava o esboroamento desse contexto semi-feudal, por torná-lo obsoleto, incompatível com as imposições de um sistema capitalista incipiente, que previa a introdução do regime de trabalho assalariado, a formação de um mercado consumidor, o liberalismo econômico e a conseqüente mercantilização da esfera política, direcionada agora, mais por interesses financeiros que por princípios morais. O capitalismo nortista trazia ainda em seu bojo, os germes das reivindicações populares gestadas no seio de uma classe operária em formação e intensificadas dentro do contexto urbano, impensáveis e inaceitáveis para os aristocratas brancos do sul.1, Socialismo, direitos da mulher, sindicatos, igualdade racial, democracia, eram assuntos tabu, a respeito dos quais o sul idílico deveria ser protegido, posto que representariam a ruína da família tradicional protestante, de seus valores e de sua organização social.

Em outra frente, norte e sul travavam um embate político e econômico relativo à hegemonia sobre as novas terras conquistadas do México no Oeste, e o modelo de ocupação a ser implantado: O agrário escravocrata, ou o industrial capitalista. Além disso, os estados do norte tencionavam impor uma política protecionista responsável por pesadas tarifas alfandegárias contra os produtos industrializados ingleses, de modo a favorecer a indústria nacional. Para os produtores de algodão, no entanto, a relação comercial com a Inglaterra, era extremamente favorável, sendo que os ingleses representavam o seu maior mercado consumidor, e perdê-lo era um risco que não estavam interessados em correr.

Entre todos esses fatores, a abolição do trabalho escravo era o ponto em que esse antagonismo recrudescia mais criticamente. A escravidão era a base do sul agrário, mas sua extinção seria a base da implementação do capitalismo industrial, e nesse sentido, o discurso referente à abolição, tornou-se a principal bandeira dos estados do norte, respaldados pela atuação de intelectuais, artistas, humanistas e políticos abolicionistas. Os sulistas, por seu lado, acusavam os do norte de tentarem solapar as bases da sua sociedade e, sustentando o discurso sobre a necessidade da manutenção do supremacismo branco2, buscavam garantir politicamente a continuidade do regime de escravização negra. Calorosos debates eram travados no campo intelectual,numerosas obras foram escritas tendo na libertação dos escravizados o seu tema. Muitos foram também os negros alforriados que contribuíram ativamente com o movimento abolicionista.

Em 1860, a Guerra se inicia, quando os estados do sul se separam da União, e em 1862, o Presidente Abraham Lincoln assina o Abolition Act, a libertação dos cativos do sul. Essa medida teve como pano de fundo, a incorporação dos negros nos exércitos da União, que até então vinham sendo batidos pelas tropas confederadas. A entrada dos ex-cativos na guerra vai determinar a mudança nesse quadro, e a vitória do norte em 1865. Os sulistas sofreram derrotas esmagadoras e tiveram o sistema escravista desestruturado, além da imposição de aceitar a legislação nortista, relativa não somente às questões raciais, mas à organização política e à economia, agora abertas ao poder do capital.

A “Reconstrução”

“40 Acres de terra e uma mula”, era a promessa do governo para cada família negra do sul. O período imediatamente posterior à guerra, conhecido como “reconstrução americana”, que vai de 1865 a mais ou menos 1880, com o início do processo de reforma agrária e democratização política, e, no sentido contrário, de 1880 até 1920, quando as leis segregacionistas do sul, baseadas no conceito de “diferentes, mas iguais” são nacionalmente referendadas, jogando por terra o sonho dos dez milhões de americanos negros de construir uma nação sobre um projeto de igualdade real, de direitos e oportunidades, é o período concernente à nossa pesquisa. È durante esse período que os afro-americanos vão atuar de forma mais marcante, no que se refere a elaborar proposições e movimentos voltados para a integração do negro na sociedade americana, seja a partir de um ponto de vista de políticas públicas seja a partir da auto-determinação enquanto comunidade étnica específica.

Booker T. Washington, W.E Dubois e Marcus Mosiah Garvey, são três dos mais destacados nomes desse período turbulento, no qual a manipulação política e a ação terrorista de organizações racistas, como a Klu Klux Klan, boicotaram e minaram por dentro o projeto de “reconstrução”, consolidando o regime de segregação racial que perdurou no sul até meados dos anos sessenta do séc XX, quando os movimentos por direitos civis conseguiram derrubá-lo.

 
O Pioneirismo Americano

Um ponto fundamental no processo de “reconstrução” do sul, e que serve como objeto importante para reflexão, no quadro da problemática abordada, é o pioneirismo americano no tocante à discussão de projetos de políticas públicas oficiais direcionadas para a integração da população negra na sua sociedade, em se tratando de um país multirracial. Independendo de uma análise crítica aprofundada do teor dessa discussão, ou mesmo de um questionamento quanto a sua condução e tendências, o fato a ser ressaltado é o de que o recém formado estado americano viu-se na contingência de determinar políticas oficiais para a integração do povo negro americano, incluindo nessa discussão, pontos cruciais, como reforma agrária, emprego, educação e representação política. A admissão estatal, do contingente populacional negro enquanto organismo diferenciado política e historicamente no contexto nacional, a compreensão do processo de escravização enquanto fator de degradação econômica e social, reforçada pelo discurso democratizante e igualitário da recente constituição americana e da própria guerra civil em si, criaram o campo no qual projetos de discriminação positiva puderam ser vistos como veículos óbvios para a inserção social dos negros, e o fato de equipararem-se, em quantidade, tanto os projetos oficiais para essa inserção, quanto aqueles gerados pela própria comunidade ( refiro-me à criação de escolas, grupos de mulheres, iniciativas econômicas coletivas, etc.), remarca a postura assumida por essa comunidade, de não entender-se enquanto mero objeto social, mas sim sujeitos de seus próprios caminhos, postura essa que vai dar a tônica do povo afro-americano, mesmo nos momentos em que o aparato legal do estado volta-se com a determinação de Paralisar os seus movimentos.

Ainda durante a própria guerra civil3 o “ Freeman´s Bureau” , surge como via estatal para a integração dos negros recém libertados e seguindo o Freeman´s Bureau, diversas outras agências governamentais foram instituídas com esse objetivo, visando coordenar o processo de reconstrução, abertura de escolas, distribuição de terras, financiamento e crédito, bem como processos eleitorais e judiciais. Em 186* surge a primeira universidade para negros, em 186* os primeiros hospitais. As obras de Washington, Dubois e Garvey, vão se situar justamente no início, meio e fim, respectivamente, dessa era de explosão de perspectivas, de ilusões, de sonhos e de frustrações. São três modelos diferenciados para o posicionamento e conduta do povo negro perante a sociedade americana (e vice-versa), construídos por três homens negros imbuídos no compromisso/missão de guiar o seu povo desde os grilhões da escravização até o conforto de uma cidadania plena. Três projetos historicamente entrelaçados e complementares, mas ao mesmo tempo antagônicos e em permanente conflito, que através dos tempos e ainda hoje, nos oferecem subsídios para enriquecer e facilitar discussões referentes às políticas raciais.

Booker T. Washington

O homem que mais tarde viria a ser conhecido como “o grande conciliador”, nasceu em 1856 em uma plantação de tabaco situada na Virgínia, ainda sob o regime de escravidão. Era filho de uma cozinheira negra com um agregado branco de uma das fazendas da cercania. Washington começou a estudar, antes mesmo que a proclamação da emancipação tornasse legal a educação para negros, carregando livros dos filhos do fazendeiro. Após a guerra, sua família muda-se para West Virgínia, onde trabalha e estuda. Aos 16 anos, acorre ao Hampton Institute, uma nova escola para estudantes negros. Trabalhando para pagar os estudos, Booker T. torna-se instrutor do Hampton Institute e depois de alguns anos, funda o seu próprio instituto educacional, o Tuskgee Institute, no Alabama, sendo seu diretor e principal mentor, transformando-se em um dos mais notáveis homens negros do seu tempo, além de educador respeitado. Foi o primeiro homem negro convidado para tomar um chá na casa branca e a ser recebido por um presidente (Theodore Roosevelt). Por conta de um discurso conservador e acomodado relativo à questão racial, Washington recebeu substancial suporte de brancos ricos e do próprio governo para o seu instituto, visto como fórmula ideal de resolução para a problemática étnica latente no sul dos Estados Unidos. Falece em 1915, aos 59 anos, alguns meses após liderar uma campanha de boicote contra o filme de W. Griffti “O Nascimento de Uma Nação”4.

Entre os três paradigmas abordados, a proposição de Booker T. Washington para a inclusão social do negro, aparece como sendo a mais moderada, e diria-se mesmo, a mais retrógrada, tendo em vista o grau de apelo democrático contido no discurso político da época. De todo modo, a posição de Washington é marcante na sua objetividade e no seu pragmatismo, mostrando-se viável e eficaz enquanto solução para uma delicada situação de impasse político e racial, onde os atos necessariamente tinham que ser pesados de acordo com suas conseqüências.

Para Booker T. Washington, não havia sentido em uma luta do povo negro por questões como igualdade racial, direitos eleitorais e civis, ou educação superior. Seus esforços deveriam estar direcionados ao resgate moral, e à emancipação econômica através do trabalho duro e da educação técnica profissionalizante. Segundo Washington, a formação universitária superior era completamente inútil, em se tratando de uma comunidade recém saída da escravidão, afundada na miséria financeira, no ócio, na marginalidade, no alcoolismo e na prostituição. Direitos de votar e de ser votado tornavam-se ridículos quando relativo a uma população afundada mortalmente em dívidas nos armazéns de alimentos e agiotas em geral, que emprestavam dinheiro e vendiam aos negros baseados nos dividendos das colheitas futuras, criando uma nova relação de trabalho sem renda, similar ao escravismo. No que se refere à igualdade racial, acreditava que: “em todas as coisas meramente sociais, podemos ser tão separados como os dedos das mãos, ainda que unidos em todas as coisas essenciais para o progresso mútuo”5, como declarou no discurso de 1895 “ O Compromisso de Atlanta”, feito para uma audiência bi-racial, no qual expõe os estamentos filosóficos do seu projeto.

Obviamente, essas proposições foram aclamadas como sendo a solução ideal para o impasse sulista. Do ponto de vista da sociedade branca do sul, extremamente pressionada pelo liberalismo sócio-econômico nortista e interiormente pela intensa luta dos negros por igualdade de direitos, nem eles mesmos poderiam imaginar uma saída mais apropriada. O posicionamento de Washington, ao mesmo tempo em que se adequava às necessidades da industrialização incipiente, trazia um modelo de integração subalterna, que mantinha intocadas as estruturas da hierarquia racial sulista, abrindo as portas para o progresso sem, no entanto, esboçar questionamentos referentes ao supremacismo branco, enfim, mantendo as coisas em seus devidos lugares!

O Instituto Tuskgee foi o seu laboratório, onde colocou em prática suas propostas educacionais, obtendo resultados consideráveis e granjeando a admiração de muitos brancos nortistas, impressionados com sua política de distanciamento da questão racial, sendo que milionários como John Rockfeller e Andrew Carnegie eram doadores freqüentes do Instituto, que em 1905: “Era uma instituição com 8 mil estudantes vindos de 19 estados, com setenta e nove instrutores, 14 mil acres de terra e trinta edifícios, entre grande e pequenos, uma propriedade de U$ 280.000”6. Apesar da sua postura “conciliadora”, Washington não deixou de ser alvo de críticas dos movimentos negros, que o viam como uma espécie de traidor, por desviar a comunidade das lutas por direitos civis. Por outro lado, na medida em que os brancos recuperavam o controle das instituições sulistas, conquistando o respaldo legal para o recrudescimento das tendências segregacionistas, até mesmo um modelo “ conciliador” de integração, passava a ser desinteressante, posto que antagônico ao restabelecimento da linha racial no tocante às relações sociais, contrário a qualquer tipo de autonomia por parte dos negros. Além disso, a dependência de suporte financeiro para a manutenção do seu projeto, determinou a debilidade do mesmo, no momento em que muitos financiamentos foram suspensos, por conta dos re-arranjamentos políticos e econômicos entre o norte e a “nova aristocracia industrial sulista”. Em seus últimos anos, foi testemunha do sucateamento da sua instituição, o que no entanto, não foi capaz de obliterar a sua importância enquanto projeto de emancipação econômica para o povo negro, nem o seu alcance como modelo prático sua construção.

W.E.B.Dubois

Em 1903, Dubois compõe a abertura do seu livro, “ As Almas da Gente Negra”, afirmando que “ O problema crucial do séc XX, será o problema racial”. Se enquanto estudante, intelectual, educador e líder político, devotou todos os seus dias em prol do fortalecimento do povo negro, empenhando-se completamente na luta por seus direitos, na América e mesmo internacionalmente, ressaltando as raízes racialmente determinadas do quadro de prejuízo social em que se encontravam as populações de cor, Dubois foi, acima de tudo, um democrata, e nesse sentido, um racial democrata. O fio condutor e base da sua luta racial, não foi mais que uma luta por integração da população negra na sociedade americana, e todos os seus esforços foram direcionados para que essa integração se desse da forma mais equânime possível, alçando o homem negro à categoria de cidadão pleno, em igualdade de direitos e deveres com todos os demais componentes do organismo social norte-americano. De todo modo, Dubois não se privou, em sua obra, do exercício da teorização sobre mecanismos que pudessem conduzir o povo negro, desde a escravidão à cidadania, através de políticas públicas voltadas para a sua inclusão social, valendo-se ressaltar, a constância da idéia de cidadania plena7, presente mesmo na construção desses mecanismos de discriminação positiva.

Sua obra é um marco no que diz respeito à história e à sociologia do negro na América, tendo sido um dos primeiros autores a lançar um olhar científico e acadêmico sobre temáticas concernentes à própria história americana, como o tráfico negreiro, tema da sua monografia para Harvard, e a reconstrução do Sul, no pós-guerra. Foi um dos educadores mais respeitados do seu tempo, tendo alcançado reconhecimento internacional. Orador eloqüente, capaz de angariar as simpatias das multidões, articulador político, poeta e pensador, manteve por toda a vida a crença de que a absorção do povo negro na nação americana, tornaria-a definitivamente uma das mais poderosas do mundo.

W.E.Dubois, nasceu em uma pequena vila em Massachussets, no ano de 1868. Estudou na Fisk University, indo terminar sua graduação em Harvard, tendo sido o primeiro afro-americano a receber o título de PHD da respeitada universidade francesa. Tornou-se professor da Atlanta University em 1897, e em 1903 escreveu “As Almas da Gente Negra”, sua principal obra e um dos mais importantes livros já escritos sobre a realidade do negro na América. “Souls of Black Folks”, conduz o leitor a um mergulho profundo na psicologia de um povo, cuja própria personalidade encontrava-se cingida pelo choque entre a sua auto-percepção e a negação imposta pela escravidão e o supremacismo branco. História, sociologia, cultura, educação, política, cada um dos capítulos que compõem o livro, apresentam uma abordagem acadêmica e documental das facetas da experiência afro nos Estados Unidos, baseada principalmente, no entanto, na sua vivência enquanto educador. Analisa as políticas utilizadas para a reconstrução sulista desde o início da Guerra Civil, criticando ferrenhamente a política de acomodação e subalternidade de Booker T. Washington, ao mesmo tempo em que, no livro, expõe as premissas do seu projeto para o negro e sua inserção.

Como líder político, Dubois organizou o 1º Congresso Panafricanista Internacional em 1900, e em 1905 foi um dos fundadores do “Niagara Movement”, que mais tarde daria origem ao NAACP, um dos principais grupos representantes da comunidade negra americana durante todo o séc XX e até os dias de hoje. Depois de várias décadas de militância, Dubois mudou-se para o Gana, na áfrica, onde pretendia finalizar a sua obra magna, uma enciclopédia sobre a história da África. Dubois faleceu sobre o solo africano em 1963, no mesmo dia em que 250.000 pessoas marchavam sobre Washington D.C., com Martim Luther King JR., durante a luta por direitos civis.

W.E.Dubois, desejou abolir legalmente a linha racial enquanto determinante sócio-econômico nos Estados Unidos da América, e acreditava ser dever do próprio estado americano, criar os meios para que os afro-descendentes fossem integrados à sociedade sem nenhuma distinção ou estigma, a partir de políticas públicas com esse fim, baseando sua luta em três pontos sobre os quais era irredutível:o direito de voto, a igualdade civil e o direito de educação superior de acordo com as capacidades dos indivíduos. Discordou publicamente do posicionamento conciliador de Booker T. Washington, em propor uma educação industrial para os negros e em manter intacta a estrutura racista da sociedade do sul8. Segundo Dubois, essa postura condenaria o seu povo a uma eterna condição de inferioridade civil e alienação política, dando na mão dos brancos o papel de condutores dos seus destinos e responsáveis por tomarem decisões em seu lugar. Seu sonho era ver o negro integrado como legítimo cidadão americano, e o caminho através do qual vislumbrava esse objetivo, era a luta por poder político pelas vias democráticas da representação eletiva, do voto e do direito de legislar. Os jovens negros deveriam ser preparados para uma educação superior, para que pudessem disputar em pé de igualdade os postos governamentais e cargos de proeminência no cenário político nacional. Ainda em “As Almas da Gente Negra”, Dubois expõe sua teoria batizada de “Talented Tenth”, segundo a qual os povos em geral, possuem um décimo entre os seus indivíduos, que pelo seu talento nato, são capazes, a partir das condições apropriadas, de conduzir positivamente os seus demais concidadãos. Contextualizando, Dubois advoga que se a décima parte talentosa do povo negro pudesse ser plenamente preparada através da mais refinada educação erudita, nas mais variadas áreas do conhecimento humano, seria o suficiente para que, de volta à comunidade, guiassem todos os outros homens e mulheres negro(a)s pelos caminhos do conhecimento e da “civilização”, tornando-os aptos para conviver com plenitude em um regime democrático, somando as suas potencialidades `as dos demais povos que compunham a nação. Lutador abnegado durante toda a sua vida, podemos entender, no entanto, um certo teor de decepção quanto à “democracia americana”, contido na sua opção de alinhar-se, já em idade avançada, às fileiras do Partido Comunista dos Estados Unidos. Do mesmo modo, o auto-exílio na terra dos seus antepassados, aonde veio a passar os últimos anos da sua vida, não deixam de representar a confissão de um homem consciente de ter cumprido o seu papel em uma batalha árdua e exaustiva, digno merecedor da paz e do descanso de uma terra maternal, a Gana Independente governada por Kwame N´Krumah.

W.E. Dubois, como veremos adiante, homem proeminente no cenário político americano, possuiu também, obviamente, sua cota de críticos e opositores. No nosso projeto de estudo, Dubois está situado em uma posição chave, posto que sua vida e obra se interrelacionam conflituosamente, tanto com as de Booker T., quanto, posteriormente, com a de Marcus Mosiah Garvey, e é justamente esse tríplice conflito que vai nos proporcionar o entendimento dialético das três obras visibilizadas em seus diversos aspectos. No entanto, independente de qualquer novo ângulo de análise que o explicitamento dessas discordâncias possa nos conduzir, encontraremos as marcas de um homem brilhante e devotado ao ideal de progresso do seu povo, inevitavelmente presente em qualquer trabalho ou estudo que se arvore em focalizar os mais brilhantes representantes do povo negro no Séc XX.

Marcus Garvey

Marcus Mosiah Garvey Jr., nasceu em St. Ann Bay, Jamaica, em 17 de Agosto de 1887. Seu pai era um Mestre marceneiro que apesar de não possuir educação formal, possuía uma ampla biblioteca o que lhe proporcionou o prematuro contato com as letras. Garvey estudou na Escola Anglicana de Gramática, ainda em St Ann Bay, graduando-se também no Ginásio da Igreja da Inglaterra. Aos catorze anos, a instabilidade financeira de sua família obrigou-o a deixar a escola e tornar-se aprendiz das artes gráficas com seu avô, Mr. Burrowes. Nesse período Garvey pode utilizar-se da grande biblioteca do avô, alem de adquirir os conhecimentos jornalísticos que posteriormente seriam necessários para a preparação de jornais e revistas.

Aos vinte anos Garvey já se tornara mestre gráfico, mas o seu envolvimento com as greves por melhores salários durante a crise que assolou a Jamaica na primeira década do séc XX, custou-lhe o emprego e a carreira na Benjamim Company, em Kingston. De todo modo, esse momento, marca o início do reconhecimento de Marcus enquanto líder para os trabalhadores de descendência africana, e através da fundação de dois jornais o “Garvey’s Watchman” ( Observatório de Garvey) e o “ Our Own” ( Nosso Mesmo), consegue fundos para devotar todo o seu tempo para o trabalho editorial e a organização da população negra da Jamaica. Durante os anos da década de 10, Garvey viaja para a Costa Rica, Panamá, Nicarágua, Honduras, Colômbia e Venezuela, trabalhando como peão em fazendas de banana e cana de açúcar. Nessas viagens, testemunha a realidade de exploração, humilhação e miséria em que se encontravam os trabalhadores negros e o povo negro em geral em todo o Caribe e parte norte da América do Sul. Alem disso, privou contato com diversos homens que haviam sido soldados nos exércitos europeus durante as guerras colonialistas, após a Conferência de Berlin em 1884, quando uma Europa faminta por matérias primas africanas, dividiu o controle do continente negro entre Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Bélgica, Espanha e Portugal. Esses homens haviam sido recrutados pelos regimentos das Índias Ocidentais e utilizados para expulsar as populações nativas e roubar os seus territórios, e puderam relatar a Garvey a situação degradante vivenciada em África.

Em 1914, Garvey Funda a Universal Negro Improvement Association , UNIA ( Associação Universal para o Progresso Negro). Entidade que seria por toda a sua vida o carro chefe de suas atividades enquanto liderança negra. Durante os anos de 1912 e 1913, Garvey havia viajado para a Inglaterra, e durante essa estadia pôde aprofundar os seus conhecimentos sobre história da África Antiga, recursos naturais, política internacional e colonialismo, mantendo uma estreita relação com o intelectual egípcio Duse Mohamed Ali. Em 1915, a convite de Booker T. Washington, viaja para os Estados Unidos com o intuito de conhecer de perto o Instituto Tuskgee, fundado por Booker T., cujo modelo Garvey pensava em adaptar para a Jamaica. No entanto, Washington viria a falecer em Novembro de 1915 e Garvey somente consegue chegar aos Estados Unidos em Marco de 1916. Após alguns meses de contato, Garvey decepciona-se com as lideranças negras norte-americanas e começa a viajar por todos os estados, palestrando, discursando e fundando sedes da UNIA. Essas sedes, chamadas de “salas da Liberdade”, eram espaços pra encontros dominicais, aulas, reuniões políticas, shows, festas, distribuição de alimentos e caridade aos sem teto. Em 1919, a Unia funda a Black Star Line Company, uma frota de navios de transporte coletivo interamericano, em resposta às leis de segregação e aos maus tratos nos navios convencionais. Em 1920, organiza a convenção Internacional de Pessoas Negras no Mundo, realizada em Nova York, com o tema “África Para os Africanos”, contando com a participação de milhares de representantes do povo negro. Entre outras coisas, a UNIA foi responsável pela fundação da “Corporação de Empresas Negras” em 1919, com o intuito de criar a semente de um capitalismo negro e garantir que empresas negras pudessem suprir todas as necessidades usuais da comunidade, como lanchonetes, lavanderias, rouparias, publicações, etc. A corporação foi fundadora da primeira fábrica de bonecas negras que se tem noticia. Em 1920, o conselho executivo da UNIA, debruçou-se também sobre a idéia de um projeto de repatriação de negros africanos para a África, projeto que não foi à frente devido a pressão exercida pelo estado americano sobre o governo da Libéria, no sentido de impedir sua realização.

Obviamente, o projeto da UNIA e de Garvey, em sua essência, o soerguimento da raça negra enquanto poder político e econômico autônomo, sobre as bases de uma unidade cultural etnocêntrica e um discurso de nacionalismo africano, tornara-se uma pedra no sapato, não somente do governo dos Estados Unidos9, mas também das próprias lideranças negras americanas democratas e mesmo de esquerda, comprometidas com o discurso de integração e acomodação da população negra enquanto cidadãos americanos. Ainda mais se considerarmos que por volta de 1926, a UNIA era representada por 725 sedes nos Estados Unidos e por 271 outras através do mundo, incluindo algumas em solo africano totalizando mais que sete milhões de afiliados, que gerenciavam um patrimônio de vários milhares de dólares.

Foram justamente essas lideranças negras norte-americanas, principais responsáveis pela incansável campanha conduzida contra Garvey e UNIA, que reforçada pelo Governo Federal, culminaria com a prisão de Marcus Garvey em 1925 sob a acusação de fraude postal, e sua deportação em 1927, após dois anos e nove meses de cárcere. Garvey continuou, no entanto, com o seu trabalho na Jamaica e em outros países, até que um derrame cerebral, paralisou todo o lado direito de seu corpo em 1940. Garvey veio a falecer um mês depois, no dia 10 de junho de 1940.

“ Perguntei: Onde esta o governante negro, onde esta o seu rei e o seu reino?” “ O seu presidente, seu pais e seu embaixador?” “ Sua marinha, seu exercito, seu líder?” “ Não pude achá-los e então eu declarei: Eu ajudarei a fazê-lo!!”10

Marcus Mosiah Garvey, não tinha nada a ver com o sonho americano, e sua chegada aos Estados Unidos teve o efeito atordoante de um terremoto. Muito desse impacto se deve diretamente a força da sua personalidade, era um homem de ação, imbuído na missão de fazer o seu tempo. Um preto forte, retinto, acostumado a assumir o papel de liderança desde os catorze anos de idade, quando coordenava o trabalho de dezenas de homens adultos nas oficinas gráficas do Sr Burrowes. Garvey estava impressionado com o que vira em suas viagens pelo Caribe e América do Sul, e mais ainda com os relatos que ouvira durante sua estadia na Inglaterra, sobre a realidade do massacre colonial em África. Havia um sentimento de urgência em sua mente, responsável pelo contato com Booker T. Washington, cujo livro “Up From Slavery” inspirara em Garvey o desejo de implementar na Jamaica algo semelhante ao Tuskgee Institute. Foi o próprio Washington quem o convidou e financiou para que visitasse Tuskgee, mas quando Garvey desembarca nos Estados Unidos em março de 1916, já faziam vários meses que Washington falecera no inverno de 1915.

Marcus, no que tange ao nosso estudo, não representava nem a postura conciliadora de Booker T. Washington sulista, e nem o negro democrata integracionista encarnado por W. E. Dubois e o NAACP. Era fundamentalmente um homem negro do hemisfério sul, posteriormente compreendido como 3º mundo, região sobre a qual os Estados Unidos já ensaiavam a sua política de hegemonia imperialista, tendo se apossado militarmente da região onde fora construído o Canal do Panamá, em 1913, um ano após intervir na Nicarágua, em 1912. Os Estados Unidos ainda ocuparam o Haiti em 1915 e Santo Domingo em 1916, e, além disso, o exército americano apoiara as forças sul-africanas, no controle das áreas do sudoeste do continente.

Garvey não alimentava ilusões de que tal projeto político pudesse incluir em suas entranhas, vias para que o povo negro alcançasse o status de cidadania ou uma posição de isonomia social, a partir da qual pudesse desenvolver livremente o seu potencial, com direito à condução do seu próprio destino. Para ele, o homem branco nunca abriria mão de sua posição de privilégio. Acreditava que o povo negro deveria optar por construir uma relação de respeito através da conquista de poder, e de um poder direcionado, não para o direito de tornar-se branco dos raciais-democratas, mas para o direito de construir suas próprias estruturas, suas próprias nações, se necessário fosse, devendo-se ressaltar ser a idéia de retorno à África uma das temáticas recorrentes do discurso de Garvey, o que não o afastou, no entanto do exercício da construção do poder negro, onde quer que estivesse11. Para isso seria necessária, a estruturação de um movimento de capitalismo negro muito proximamente similar às organizações financeiras/comerciais que imperavam entre as comunidades italianas, irlandesas, alemães e judias, entre outras, e que iriam se tornar o modelo das relações raciais na América. Esse modelo estabelece um determinante racial para as relações entre investimento-produção-comércio-emprego-consumo, que possibilita a circulação de renda e lucro dentro da própria comunidade, apta para posteriormente reinvestir esse lucro, gerando melhorias coletivas, além de incrementar a unidade cultural e os laços de solidariedade entre determinado povo.

A poderosa oratória do líder jamaicano atraía aos milhares os negros americanos que fugiam em massa da nova onda racista que assolava o Sul, bem como os negros do Norte, cada vez mais desesperados de que conseguiriam conquistar desenvolvimento através de políticas parlamentares, em um regime marcado pela corrupção e pelo supremacismo branco. Todos estavam eletrizados com o discurso do homem que bradava para as multidões: “O novo negro não tem medo!, “África para os Africanos!”, Um povo, uma missão, um destino!”, “Erga sua poderosa raça!” Garvey foi um dos principais precursores e divulgadores do nacionalismo negro e do panafricanismo, doutrina que pregava a união de todo o povo negro, em África e na diáspora, em prol do resgate de sua herança histórica e cultural, para além de quaisquer fronteiras ou diferenças lingüísticas.

Incluía o povo negro do mundo em um projeto bem maior que a simples reivindicação de melhorias sociais. Para Garvey era evidente a necessidade de que o controle político econômico e militar do continente africano estivesse nas mãos dos próprios africanos para que se operasse a reconstrução do continente enquanto lar e referência do seu povo, de modo a que seus filhos não mais necessitassem mendigar aceitação na sociedade branca, mas que pudessem relacionar-se em pé de igualdade, respeitados em suas diferenças, com qualquer outro povo sem que a sua integridade fosse ameaçada ou questionada12. Garvey representou o sonho e as frustrações da classe trabalhadora negra em desenvolvimento e suas palavras e ações permanecem vivas e poderosas até os dias atuais, tendo influenciado toda uma geração de lideranças negras, como Malcom X, os Panteras Negras, Abdias do Nascimento, e mesmo os principais líderes dos movimentos independentistas que eclodiram em África desde meados dos anos 50, como Kwame N’Krumah, Sekou Touré, Patrick Lumumba, Julius Nyerere, Ahmed Ben Bella, Kallel Abdel Nasser e Hailé Selassieh, sobre o qual Marcus Garvey profetizou sua coroação em 1925.

Booker T. Washington- W.E. Dubois – Marcus Garvey: Três Paradigmas negros em conflito.

O primeiro dos homens sobre os quais lançamos o nosso interesse, enquanto líder negro capaz de elaborar uma proposição sistemática original para (tentar)resolver o problema do povo negro recém saído da escravidão americana, Booker T. Washington, homem negro sulista, desenvolveu suas perspectivas tendo muito influído sobre elas, a particular situação de opressão e pressão racial historicamente solidificadas nessa região e polarizadas a partir de um processo de “democratização forçada” conduzida pelas tropas yankees durante o período da reconstrução. É notável, em toda a sua obra, a preocupação em propor um modelo de inclusão do povo negro na sociedade americana, buscando ao mesmo tempo, não ferir o tecido das relações raciais ali estabelecidas durante os séculos escravistas. Partindo do pressuposto de que a preguiça e a degradação moral, somados à pobreza e à falta de capacitação técnica eram responsáveis pelo atraso social e empecilho para o desenvolvimento da comunidade negra13, Washington vai questionar (e negar) a importância das lutas por direitos civis, de voto e de educação superior para uma comunidade que não teria preparo para utilizá-los em proveito próprio. Através de uma rígida postura moral, da capacitação técnica industrial e do trabalho, o negro americano forçaria o branco,segundo Washington, a uma reavaliação de suas concepções negativas, o que acarretaria um novo processo na história das relações raciais. Booker T. Washington estabelece um paradigma de integração do negro na América que retira do branco e joga sobre as costas negras, toda a responsabilidade da condução desse processo, abrindo o precedente para que quaisquer falhas posteriormente existentes em suas relações, pudessem ser justificadas mais pela imperícia do povo dominado do que às pressões do dominador, ou ao próprio desequilíbrio imanente à essa relação. Se em um determinado momento, o seu projeto de cidadania subordinada caiu como uma luva para o sistema branco sulista, vimos que posteriormente a sua proposição por autonomia econômica, mesmo que desprovida de qualquer discurso de conteúdo racial, tornou-se um problema para o supremacismo etnocêntrico e foi facilmente paralisado a partir da dependência estrutural do seu projeto.

Dubois, em contrapartida, foi um homem clássico (“Um grego”, para utilizar a expressão de Joaquim Nabuco em sua aclamação póstuma de Machado de Assis14) Como vimos, sua formação acadêmica, que incluía o título de Phd em Harvard, era um privilégio de difícil acesso mesmo para a maioria da população branca. A crítica ferrenha direcionada contra Booker T. e posteriormente contra Marcus Garvey, demonstra fundamentalmente a solidez de sua crença nos valores presentes no discurso burguês democrata em voga no norte dos Estados Unidos, bem como nos princípios humanistas e progressistas legados de sua formação acadêmica positivista.Tanto a cidadania subordinada proposta por Washington quanto o desenvolvimento em separado fundamentado na afirmação étnica defendido por Garvey, representavam retrocessos no que se refere à legislação e feriam os princípios igualitários presentes na constituição americana que o permitiam vislumbrar uma sociedade na qual a linha de cor fosse definitivamente superada através da ação política das lideranças negras e de seus aliados brancos.

Nesse sentido, podemos compreender tanto em algumas colocações de Garvey: “Os maiores homens e mulheres do mundo foram pessoas que se auto-educaram fora da Universidade, com todo o conhecimento que a Universidade oferece, e você tem a oportunidade de fazer a mesma coisa que um estudante universitário faz: Ler e estudar!”15 como de Washington: “quando eu era apenas um garoto, eu vi um jovem homem negro que tinha gasto vários anos na escola, sentado em um barraco ordinário no Sul, estudando uma gramática francesa. Notei a pobreza, a desarrumação presentes no barraco, não obstante o seu conhecimento em francês e outros assuntos acadêmicos.”16um certo grau de desconfiança e mesmo de desdém, quanto às possibilidades de que a educação acadêmica pudesse oferecer à comunidade negra, vias para a superação de seus problemas imediatos. Há uma rusga classista que no entanto não se interpõe ao conteúdo racial e político da discussão. Dubois não poderia admitir contra os seus princípios, a atitude conciliadora do discurso de Washington: “Queremos sufrágio para todos os homens, e queremos agora! Nós somos Homens, queremos ser tratados como homens e nós venceremos!” como afirmou no manifesto do Niagara Movement, predecessor do NAACP, dez anos depois do discurso de Booker T. Washington desaprovando a luta dos negros por igualdade de direitos civis. De toda maneira, tanto Dubois quanto Marcus Garvey, vão afirmar em determinados momentos de suas obras a importância de Washington e do seu trabalho no Tuskgee Institute valendo lembrar, que todo um capítulo de “As Almas da Gente Negra” é dedicado a analisar e combater as proposições de Washington.

Em 1915, porém, o homem de Atlanta falecera, alguns anos depois, a luta que se estabeleceria entre Garvey e Dubois não estaria sujeita a reconciliações póstumas e o caráter racial de suas posições assim o determinaria. Dubois, assim como Washington, acreditava na necessidade de um processo de profilaxia social que capacitasse para a inclusão a comunidade negra na sociedade americana e que esse processo deveria ser conduzido pelos “dez por cento mais talentosos” representantes da raça, que preparados por uma refinada educação acadêmica, atuariam como certa vanguarda educacional, cultural e política junto aos seus aliados brancos, no sentido de resgatar os outros noventa por cento da população negra, internados na degradação da ignorância e da marginalidade social. Para Garvey, pelo contrário, havia a necessidade de afirmar a origem da situação de degradação em que se encontrava o povo negro no mundo, no próprio processo colonial escravista, responsabilizando o branco por esse quadro17 e determinando, através do resgate da história ancestral particular do negro, a necessidade de uma ação própria contra as representações vigentes desse processo, baseando-se em uma luta autônoma por auto-determinação liderada e coordenada pelo próprio negro.

Nesse contexto, Garvey expressaria a sua decepção relativa a seu primeiro contato com as lideranças negras norte-americanas: “Eu imediatamente visitei alguns assim chamados ‘líderes negros’, apenas pra descobrir, após um estudo próximo deles, que eles não tinham nenhum programa, mas eram meros oportunistas que viviam de sua liderança, enquanto as pessoas pobres estavam indo para o fosso”18 .Desgostaria-se do mesmo modo, com o discurso moderado do NAACP, inquietando-se quanto à neutralidade da postura racial integracionista assumida pela organização, que segundo Garvey, era conduzida na direção do embranquecimento cultural e psicológico, que conteria mesmo uma pigmentocracia na qual os negros mestiços de pele mais clara seriam privilegiados e favorecidos no que se refere a ocupação de cargos de comando. Tal idealização do embranquecimento, já havia sido uma das principais fontes de atrito para Garvey na Jamaica, e encontrá-la repetida na América serviu-lhe para remarcar sua ruptuara com a social democracia negra, como para reforçar sua opção pelo nacionalismo africano.

O sucesso estrondoso de suas pregações e da UNIA entre a massa afro-americana, iria ser base para uma relação de conflito permanente entre Garvey e as demais organizações sócio-políticas negras ou voltadas para o público negro, como os grupos socialistas, sociais-democratas, o NAACP e posteriormente o incipiente Partido Comunista Americano e as Igrejas Evangélicas, que tinham em comum, a insistência na tentativa de cooptação de membros da UNIA para suas fileiras. A UNIA atingiu proporções espantosas, mantendo até hoje a marca de ter sido a mais numerosa organização negra da história mundial, chegando a mais de oito milhões de membros espalhados por todo o mundo. Esse crescimento, obviamente foi acompanhado por movimentos proporcionais de oposição, que culminaram em suas estratégias, no indiciamento de Marcus Garvey em 1925 sob a acusação de fraude postal e com a campanha pública “Garvey deve partir!” encampada principalmente por eminentes representantes do NAACP. Segundo a Senhora Garvey, esposa e principal mantenedora do legado de Marcus Garvey, Dubois teria sido o mais empedernido oponente de Garvey, tomando para si, a missão de livrar a América dos perigos do extremismo racial. Em 1927, Garvey era deportado, como já vimos, após mais que dois anos de cárcere. Por ironia da história, como conclusão da presente exposição de paradigmas, o Professor Willian Eduard Dubois, iria passar os seus últimos anos e dias de vida no Gana independente liderado pelo assumidamente garveísta Kwame N’kruhmah.

Considerações Finais

Independentemente dos oportunos alertas pós-modernistas contra a debilidade da crença em uma história positivista na qual os fatos desencadeiam-se mecanicamente em uma relação progressiva e conseqüente na direção de um ideal evolutivo, não poderíamos privar-nos de expressar a nossa compreensão de que a história, se não é uma simplificada “esteira de sucessões”, é um campo de movimento contínuo, no qual o choque dialético de suas contradições intestinas vai determinar processualmente as feições assumidas por uma realidade histórico-temporal específica. Desse modo, a análise historiográfica das micro-relações que se desenrolam através das compartimentações de um todo, crescem em importância se considerarmos a permanência de uma implicação de influências e confluências entre o todo e os seus compartimentos, e isso é óbvio. Por esse motivo, nos detivemos em examinar, no presente trabalho, a gênese histórica das modernas relações políticas e raciais e suas principais vertentes ideológicas nos Estados Unidos da América, durante as últimas décadas do séc XIX e primeiras décadas do século XX, gênese essa cujas expressões iriam marcar e referendar todo o desenvolvimento dessas relações através do século XX até os dias atuais.

Se entendemos a importância de meramente apresentar aos interessados, informações sobre um determinado cenário histórico, que por razões ideológicas nos são deliberadamente indisponibilizadas, a intenção que nos move, é a de oferecer subsídios ao leitor brasileiro, para uma discussão política e racial que leve em consideração experiências anteriores e referenciais, no sentido de minimizar o atraso de mais de um século dessa discussão colocada no Brasil, pelo menos a nível oficial, aberto e bilateral. A propensão de tratar como nova a matéria “relações raciais e estado”, resume não somente um profundo desrespeito às mobilizações históricas do povo negro no Brasil e no mundo como também mascara cinicamente a responsabilidade histórica e deliberadamente consciente das elites brasileiras geradoras e mantenedoras dessa realidade negativa. Faz-se portanto, necessário, o conhecimento objetivo das experiências históricas nacionais e internacionais relativas às relações raciais que possam nos instrumentalizar contra uma discussão superficial e mistificadora.

No Caso norte-americano, veremos as tensões referentes aos axiomas paradigmáticos raciais preponderantes na primeira metade do séc XX, estenderem-se da mesma maneira através de toda a segunda metade (ainda que com outros personagens), até o momento em que a ação avassaladora das forças repressivas, somadas ao crescimento econômico e à unidade nacional empurrada através da paranóia contra supostos inimigos externos conseguem pulverizar os movimentos negros organizados diminuindo-lhes a pujança e o apelo popular de suas mobilizações ( com exceção talvez apenas da Nação do Islam e o seu Ministro Louis Farrakhan). Quanto a isso podemos afirmar que o governo americano, em aspectos gerais vai assumir, como paradigma oficial para as relações raciais o modelo de Booker T. Washington, traduzido como uma “Concessão” de cidadania para o negro através de medidas paternalistas e controladas, nomeadamente a abertura de escolas e universidades específicas voltadas majoritariamente para a formação técnica e industrial, a melhoria nos serviços públicos e de moradia ( ínfimas, se contextualizadas nos padrões americanos), algum acesso de crédito e um discurso permanente pautado na paciência e na resignação confiante em dias melhores. Por outro lado, a movimentação conduzida pelo reverendo Martin Luther King Jr. De caráter integracionista e legalista, no qual a não violência e a crença na mudança através da ação política democrática são carros chefes do seu discurso, encaixa-se perfeitamente no modelo anteriormente defendido por Dubois, enquanto que o radicalismo fundamentalista de Malcom X e dos Panteras Negras é afilhado declarado de Marcus Mosiah Garvey e UNIA.

 

Não obstante as permanências facilmente notáveis das três correntes de pensamento estudadas, é indispensável a compreensão de que tratam-se de paradigmas que não conseguiram alcançar (e manter) posições hegemônicas em suas sociedades, e menos ainda, servirem como motores propulsores para transformações estruturais profundas quanto às determinações raciais da sociedade norte-americana, ainda que tenham podido revolver o solo apodrecido sobre o qual tais determinações se assentavam, ali deixando sementes, preparando terreno para o crescimento de eventuais revoluções.

Assim posto, temos o privilégio de dispor de um quadro para análise que nos oferece projetos e métodos, aplicações, erros e acertos testados e avalizados (ou não) na prática, homenageados e proscritos estejam os heróis e traidores dessa novela real que é a história. Ressaltando o óbvio, não podemos deixar de receitar àqueles que se interessem em pensar as modernas relações raciais brasileiras utilizando como referência a experiência afro-americana, o cuidado no processo de contextualização, com as especificidades de cada uma dessas realidades, separadas não somente por mais uma América, mas por diversas características próprias e diferenciadas. A permanência cultural africana no Brasil, a proporção demográfica e a realidade econômica,são alguns desses pontos diferenciais, cuja compreensão me parecem imprescindível. Além disso, devemos reforçar com o Sr. Abdias do Nascimento, o fato indiscutível de que a experiência diaspórica do negro brasileiro, traz em si, elementos ricos e suficientes que lhe servem de materiais e referência para o seu auto-entendimento, bem como para a elaboração teórica de um eventual processo de transformação social, assunto no qual o referido autor, entre outros guerreiros, é virtuosamente competente. Nesse sentido, qualquer outras referências apenas somam-se às pré-existentes de modo a referendar a unidade além-fronteiras do vínculo latente entre a humanidade negra e seus descendentes em África e na diáspora.

Esperamos que com esse trabalho atinjamos o nosso objetivo de proporcionar aos irmãos negros o acesso ao conhecimento de conhecimento sobre nós mesmos, meta até a qual, somos permanentemente desviados, no sentido de continuarmos tutelados pelos poderes euro-brasileiros constituídos bem como por alguns “assim chamados líderes negros”, para os quais a nossa dependência intelectual, econômica, organizacional e psicológica é conveniente.

Agradecemos aos Orixás e aos nossos antepassados por esse Axé latente, aos guerreiros, às mães e aos meninos.

Sou Eu, Sou Eu…!

Bibliografia

Editorial do Jornal Chattanooga News, 5 de Agosto de 1927

Dubois, W.E.;”As Almas da Gente Negra”RJ, Lacerda Editores, 1999

FBI MEMO; John Edgar Hoover to Special agent Ridgel, 11 de Outubro de 1919

UCLA “The Marcus Garvey and UNIA Papers Project” Washington,

Booker T. “The Awakening Of The Negro” Publicado originalmente em “The Atlantic Monthly” Setembro 1896

Rydel, Roy “About W.E. Dubois: Reviewing the Review”, in “People’s Weekly World”, 9 de novembro de 1996

Diop, Cheikh Anta ; “Origem dos Antigos Egípcios”em “A África Antiga”Coordenado por G Mokhtar; São Paulo: Ática( Paris); Unesco 1983

Nascimento, Abdias do ; “O Quilombismo” Ed. Vozes-Petrópolis 1980

Franklin, John Hope; “Raça e História-Ensaios Selecionados, 1938-1988” Ed Rocco, RJ, 1999

Lowy, Michael, “A Teoria da Revolução no Jovem Marx” Ed Vozes, Petróplis 2002

Gramsci, Antônio; “A Formação dos Intelectuais” Ed Achiamé, RJ, 2000

Marx: Sociologia, Organização de Octavio Ianni e Florestan Fernandes, Ed Ática 1979

Black Diáspora – A Global Black magazine, n.o 3 “110 Years of Marcus Garvey” Jamaica, 1987 Caribe, Vol IX, n.o 1, Special Commemorative Issue “Marcus Garvey, Jamaica 1987

 

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Publicado originalmente em: http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/marcus-garvey-booker-t-wahington-e.html

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