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Nota de Apoio ao NNNE da UFRB (AKOFENA)

 

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Nós da UNIAPP viemos através desta nota tornar público nosso apoio ao Núcleo de Negras e Negros Estudantes da UFRB (Núcleo Akofena) na luta que o mesmo está travando para manter o direito, a nós tão caro, de auto-defesa.

 

Tomando ciência do ocorrido na “Cabana do Pai Tomaz”, em 25 de Junho, na cidade de Cachoeira, durante a festa de comemoração da formatura de Clissio Santana e Fred Igor através do blog AKOFENA, nós podemos perceber o quanto a situação, infelizmente, é corriqueira aonde a alegação de ter cometido excessos tenta ser amenizada de responsabilidade pelo suposto “estado de embriaguez”. A ideia que permeia a cabeça de muitos de que a Mulher Negra estará à disposição, para além de sua vontade, para satisfazer os desejos dos homens é uma máxima desta sociedade racista que ainda nos persegue e que não podemos mais aceitar.

 

Quanto a acusação de “racismo ao contrário” nos abstemos de ter que explicar, mais uma vez, o absurdo desta afirmação que traz em si uma contradição de termos.

 

A necessidade em se pautar de maneira corajosa pelas Pessoas Pretas, e por todas aquelas que se auto-intitulam contra o racismo, questões como este acontecimento aonde “não bastasse o fato de invadir a festa onde se encontrava parentes e amigos dos dois formandos, o jovem agressor passou a se esfregar em Zilda, fazendo menção de agarrá-la” é uma necessidade de extrema importância para frear este e outros posicionamentos que o povo Preto continua sofrendo nos dias atuais.

 

Com isto além de nos solidarizarmos pedimos, que todas aquelas mentes que entendem que não podemos aceitar sermos criminalizados em nossos momentos de resistência, que o levantar de nossas vozes não só é algo que queremos mas que nos é urgente e necessário, para engrossarem as fileiras desta luta por Dignidade.

 

 

 

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Africana Womanism – O outro lado da moeda

 Dr.ª Cleonora Hudson-Weems

Africana Womanism – O outro lado da moeda

Cleonora Hudson-Weems[1]

Tradução: Naiana Sundjata

Revisão: UNIAPP

Com o peso das pressões raciais no século XX, as relações tensas dentre as mulheres desempoderadas também emergiram. Para abordar estas preocupações, a Africana womanism tornou-se um antídoto para a tensão atualmente enfrentada tanto por mulheres negras entre si, bem como para as relações entre masculino / feminino. A autora vencendora do Prêmio Nobel, Toni Morrison, capta a tensão das relações femininas, em particular, em seu discurso de abertura, “Meias-irmãs da Cinderela” no Barnard College, em 1980. Para apreender as idéias de Morrison, só neste momento, gostaria que pudesse ser substituido qualquer grupo em particular para as mulheres: mães / irmãs aqui, como negros, indígenas americanos, asiáticos, latinos, judeus, etc, diversos tipos de homens, que quase da mesma maneira que as mulheres ou as “meia-irmãs”, poderiam ser discriminados aqui simplesmente por causa de suas diferenças.

“Estou sinalizando para a violência que as mulheres cometem umas com as outras: a violência profissional, violência competitiva, a violência emocional. Estou sinalizando a disposição das mulheres para escravizar outras mulheres. Estou sinalizando uma crescente falta de decência que está matando o mundo profissional feminino.

Eu não quero perguntar, mas dizer a você para não participar da opressão praticada contra suas irmãs. As mães que abusam de seus filhos são mulheres, e uma outra mulher, não uma agência do governo, tem que estar disposta a segurar suas mãos. Mães que atearam fogo ao ônibus escolares são mulheres, e uma outra mulher, não uma secretaria, tem que lhes dizer para ficar juntas. Mulheres que bloqueiam a promoção de outras mulheres em carreiras são mulheres, e uma outra mulher deve vir em socorro da vítima. As assistentes sociais que humilham suas clientes podem ser mulheres, e outras colegas mulheres têm de desviar a raiva destas. Estou sugerindo que prestemos atenção a nossas sensibilidades para a consolidação de nossa ambição. Nós estamos nos movendo no sentido da liberdade e a função da liberdade está em justamente tornar outras pessoas livres também. Você está se movendo em direção à auto-realização, e a conseqüência da auto-realização deve ser a de descobrir que há algo tão importante quanto você e que esta coisa tão-importante-quanto pode ser a Cinderela – ou a sua meia-irmã .

Na jornada para a realização de seus objetivos pessoais, não se deve fazer escolhas baseadas apenas em sua segurança. Nada é seguro! A busca pela realização de suas ambições não pode ser feita em detrimento de sua meia-irmã. Ao empunhar o poder que é merecidamente seu, não permita que isso escravize suas irmãs. Deixe a sua força e seu poder emanarem daquele lugar em você que é nutrir e cuidar

Aqui, Morrison comenta a sua perplexidade na maneira cruel que as mulheres se tratam diariamente, em especial no local de trabalho. Sua declaração oferece reflexões profundas sobre a natureza e a fonte da ausência de irmandade por parte de muitas mulheres para com as outras, um fenômeno lamentável, que viola o próprio fundamento das relações femininas. Irmandade genuína entre irmãs é uma das dezoito características da Africana Womanism que defini em ‘Africana Womanism: Reclaiming Ourselves (1993)’. Esse é um dos componentes chaves para a sobrevivência humana, pois a segurança e a harmonia das mulheres é a força e a estrutura da sociedade e de todos seus participantes. Outras características da Africana Womanism[2] são autonomear-se e autodefinir-se, ser forte em conjunto com os homens em uma luta inteira e autêntica, flexibilizar os papéis no jogo, respeitando e reconhecendo espiritualmente seus pares masculinos, respeitando os mais velhos, sendo adaptável, ambiciosa, materna e nutridora.

Refletindo sobre o elemento geral da sobrevivência humana, deixe-me desviar por um momento para o outro lado da moeda, que é o sofrimento do homem africano, porque nossos destinos estão, de fato, entrelaçados. O dilema do homem africano é simbolizado no terrível caso do assassinato de Till, extraído de experiências interligadas, o que curiosamente demonstra a necessidade de uma troca entre homens e mulheres negras para a erradicação da opressão compartilhada. Um dos exemplos mais marcantes de violência racial e dominação cultural que encaramos é o linchamento brutal, em 28 de Agosto de 1955, de Emmett Louis “Bobo” Till, um garoto preto de apenas 14 anos de idade, por ter assobiado ingenuamente para uma mulher branca, de 21 anos, Carolyn Bryant, três meses antes do Dezembro de Rosa Parks (1 de Dezembro de 1955), que se recusou a abandonar seu assento no ônibus a um homem branco em Montgomery-Alabama, tornando-se assim o verdadeiro acontecimento catalisador do moderno Movimento dos Direitos Civis dos anos cinquenta e sessenta, e que, sem dúvida, preparou o palco para o boicote aos ônibus de Montgomery. Ninguém conta a história do garoto Emmett Louis. Apenas Mooty Rayfiled, um ativista dos direitos civis, líder da União Trabalhista e meu principal informante durante a pesquisa, trouxe este caso à atenção pública. Rayfiled, primo de segundo grau de Till, afirma que:

“Ninguém que tinha idade suficiente para ter consciência poderia esquecer daquela tranquila manhã de domingo, 28 de Agosto de 1955, quando a chama do Movimento dos Direitos Civis, que estava baixa, de repente brilhou na sequência dos relatórios de cada apresentador de TV e de rádio e de ligações telefônicas entre amigos dizendo que Emmett Louis Till, quatorze anos, tinha sido arrastado da casa de seu tio Moisés Wright no Mississippi, por dois homens brancos no meio da noite, portando armas. A esposa de um dos seqüestradores acusou Till de ter assobiado para ela em um supermercado. Quatro dias se passaram e os negros esperavam que o ocorrido não tivesse passado de um pesadelo. Mas, naquele quarto dia, a dura realidade vem à tona – o rio Tallahatchie, de 10 metros de profundidade, engoliu o corpo mutilado de Emmett Till. Robert Hodges, um pescador de dezessete anos, branco, ao ver dois pés apontando para cima, se aproximou do corpo com seu barco motor e o retirou da água. O garoto havia sido linchado, estava nu com um tiro na cabeça e tinha sido jogado no rio com um descaroçador de algodão de setenta libras amarrado em volta do pescoço com arame farpado.” (Hudson-Weems, Till, 131-132).

Dito isto, gostaria de retornar a questão original da moeda – A Mulher Africana e sua situação tripla. O que é Africana Womanism?

Nem uma conseqüência, nem um suplemento ao feminismo, Africana Womanism não é feminismo preto, feminismo africano, ou womanism de Alice Walker que algumas Mulheres Africanas vieram a abraçar. Africana Womanism é uma ideologia criada e projetada para todas as mulheres da ascendência africana. Baseia-se na cultura Africana, e, portanto, necessariamente incide sobre as experiências únicas, lutas, necessidades e desejos das Mulheres Africanas. Tece uma crítica endereçada à dinâmica de conflito entre: as feministas tradicionais, a feminista preta, a feminista africana, e Africana Womanist. A conclusão é que a Africana Womanism e sua agenda são únicas e separadas do feminismo branco e do feminismo preto, e além disso, à extensão da nomeação em particular, Africana Womanism difere do feminismo africano. (Hudson-Weems, womanism Africana, 24).

Observe a importância da terminologia – Africana Womanism não é nem feminismo, nem womanism, particularmente o womanism é muitas vezes mal interpretado como sendo o mesmo que Africana Womanism, apesar do fato de Walker definir uma womanist na introdução de seu livro, Em Busca dos Jardins de Nossas Mães, como:

Uma feminista preta ou feminista de cor … que ama outras mulheres, sexual e/ou não sexualmente. Aprecia e prefere a cultura das mulheres … [e que] às vezes ama os homens individuais, sexual e/ou não sexualmente. Comprometida com a sobrevivência e integridade de todo o povo, homens e mulheres … a Womanist está para a feminista como a púrpura está para a lavanda (xi, xii)

O fator culminante para a womanism e a womanist no contexto do feminismo e as feministas é oferecer uma diferença de tonalidade, enquanto que a Africana Womanism oferece uma agenda totalmente diferente, com um conjunto completamente diferente de prioridades para as Mulheres Africanas. Perceptivelmente, os editores da “Call and Response: A Antologia de Riverside da tradição literária afro-americana” identifica que “há pouca diferenciação entre as womanist, de Alice Walker e o feminismo ‘negro’, e em graus variados, do feminismo de modo geral, bem como em termos de agendas” (1378-1379). Assim, a definição dos termos acima está estabelecida. Uma vez que isto é entendido, deve-se anotar que ao identificar-se com uma terminologia particular, você também está automaticamente comprando sua agenda política.

Na cosmologia africana, o termo nommo significa a nomeação apropriada de uma coisa que a traz à existência. Os povos de África têm sido durante muito tempo impedidos não somente de se autonomear, mas, além disso, de se autodefinir. Em seu livro ‘A bem amada’, Toni Morrison reflete sobre essa situação peculiar entre os escravizados: “As definições pertenciam aos definidores, e não aos definidos” (Morrison, 190). A impotência dos negros durante a escravidão deve ser superada, sendo agora de extrema importância aproveitamos a oportunidade de tomar o controle desses dois fatores determinantes que, se interconectados em nossas vidas, poderão evitar o isolamento, degradação e aniquilação em um mundo perdido de ganância e violência.

Por que Africana Womanism e qual a sua relativização em relação ao feminismo moderno? Para começar, as prioridades das Mulheres Africanas são diferentes das prioridades de mulheres brancas, as feministas. A Africana Womanism é centrada na família enquanto que o feminismo é centrado na fêmea/mulher. Nossas prioridades são a raça, classe e gênero, enquanto a feminista se concentra em questões de gênero. Nós nos esforçamos pelo empoderamento da raça, a feminista, não importa qual a forma de feminismo, esforça-se para o empoderamento da fêmea. A feminista branca, Bettina Aptheker, analisa objetivamente estas diferenças básicas entre as mulheres negras e brancas em seu reconhecimento de que a primeira linha de ordem para as mulheres negras e suas comunidades é abordar o fator raça. Sua avaliação precisa da situação é a seguinte:

Quando colocamos as mulheres no centro de nosso pensamento, constituimos a criação de uma matriz histórica e cultural a partir da qual as mulheres podem reivindicar autonomia e independência sobre suas próprias vidas. Para mulheres da cor, tal autonomia não pode ser conseguida em condições de opressão racial e de genocídio cultural. Em suma, “feminismo”, no sentido moderno, significa empoderamento das mulheres. Para as mulheres de cor, tal igualdade, enquanto poder, não pode ocorrer a menos que as comunidades em que vivem possam estabelecer com sucesso sua própria integridade racial e cultural. (Aptheker, 19).

Aptheker deixa claro que tratar de questões de raça para mulheres negras é um pré-requisito para abordar as questões de gênero. O reconhecimento das diferenças na luta específica das mulheres brancas contra a dominação masculina branca dentro e fora de seu domínio privado e das mulheres negras em uma luta de libertação compartilhada com os seus pares do sexo masculino torna-se crucial para a discussão. Linda LaRue, cinco anos antes de  Bettina Aptheker, compreendeu os vários graus de dominação branca masculina em relação aos homens negros e mulheres brancas. LaRue diz: “os negros são oprimidos e isso significa excessivamente sobrecarregados, injusta, severa, cruel e duramente agrilhoados pela autoridade branca. As mulheres brancas, por outro lado, só são suprimidas, e isso significa que são verificadas, contidas e excluídas da atividade consciente e evidente. Esta é uma diferença” (LaRue, 218).

A partir do conceito de LaRue, oito anos  mais tarde, Audre Lorde advertiu-nos sobre a dinâmica do fenômeno de discriminação entre mulheres negras/mulheres brancas, mulheres negras/homens negros, e inter-relações negro/branco.  Este é particularmente o caso em que as mulheres negras errôneamente aceitam a noção que elas têm um traço comum compartilhado com as mulheres brancas como sendo igualmente subjugados por seus pares do sexo masculino, o que é uma evidência sobre como a psique da mulher negra, que aceita esta noção, pode impactar negativamente  a comunidade negra. As mulheres negras compartilham, proporcionalmente,  mais a opressão imposta aos homens negros pela sociedade, que a opressão imposta às mulheres brancas. De acordo com Lorde, mulheres negras e mulheres brancas não são as mesmas. Por exemplo, é muito mais fácil para a estrutura de poder colocar mulheres negras contra homens negros, não por serem homens, mas por serem negros. Portanto é necessário que as mulheres e homens negros saibam separar a todo momento as necessidades do opressor dos conflitos que são vivenciados internamente em nossa comunidade. Esses problemas não são enfrentados pelas mulheres brancas. Mulheres e homens negros têm compartilhado e ainda compartilham a opressão racista. Assim, temos compartilhado o desenvolvimento de defesas comuns que não podem ser duplicadas na comunidade branca.(Lorde, 118).

Este fenômeno de “opressão racista compartilhada” é dramatizada em ‘A bem amada’ de Toni Morrison, que eu exploro na Africana Womanism: partilham de um elo comum, como em “a história dela era suportável porque era dele também – para contar, para refinar e dizer de novo ” (Morrison, 99). Ambos foram vítimas de forma similar, utilizados como cavalos de trabalho e abusados como objetos dos caprichos sexuais de seus opressores. Como os leitores estão bem conscientes de que as mulheres em Bem Amada, representam as vítimas do “indizível destino a que a maioria dos escravizados do sexo feminino foram herdeiras”, eles também são conscientes de que este é um destino experimentado não apenas por mulheres escravizadas. (Samuels e Hudson-Weems, 94). Pelo contrário, os homens africanos também experimentaram a exploração sexual, o que valida a tese de que a exploração sexual e o racismo identificam mais a dinâmica da experiência Africana durante a escravidão do que a noção de exploração sexual e de gênero. (Hudson-Weems, Africana Womanism, 124).

No momento, vamos rever os primórdios corrosivos do feminismo para os Negros em meados do século XIX, quando a segregação racial e a opressão estavam na ordem do dia. Feminismo e Movimento da Mulher pelo Direito ao Voto teve seu início com um grupo de mulheres liberais brancas, que estavam preocupadas com a abolição da escravidão e a concessão de direitos iguais para todas as pessoas independentemente de raça, classe e sexo. No entanto, quando a XV Emenda da Constituição dos Estados Unidos foi ratificada em 1870, concedendo aos homens Africanos o direito ao voto e negando ainda esse privilégio para as mulheres – a atitude destas mulheres brancas, em particular, mudou em relação aos negros. Ao contrário das mulheres Negras, que estavam exultantes com essa vitória para a raça Negra, por saberem que a possibilidade do voto podeia melhorar as condições da comunidade Negra, as mulheres brancas em geral ficaram desapontadas, e com razão, pois o fato de terem assumido com benevolência a seguridade de cidadania plena para as pessoas Africanas acabaria por beneficiá-los. Assim, um movimento organizado entre as mulheres brancas da década de 1880 mudou o pêndulo de uma postura liberal para uma conservadora radical.

A Associação Americana Nacional do Sufrágio da Mulher (NAWSA) foi fundada em 1890 por mulheres brancas do norte; entretanto, “as mulheres do sul foram vigorosamente cortejadas por esse grupo” (Giddings, 81) o que demonstrou o crescimento do nacionalismo no final do século XIX. Partindo da postura original das mulheres em favor do sufrágio, Susan B. Anthony reuniu a organização NAWSA, protestando que o voto da classe média de mulheres brancas ajudaria os homens a preservar as virtudes da república da ameaça dos homens Negros, inferiores biologicamente e incompetentes, que com o poder de voto poderiam adquirir poder político dentro do sistema americano. Carrie Chapman Catt, líder sufragista conservadora ferrenha e outras mulheres em seu grupo social insistiram nos valores anglo saxões e supremacia branca. Quiseram unir-se com homens brancos para fixar o voto para brancos puros, excluindo tanto imigrantes pretos quanto imigrantes brancos. No livro de Peter Carrol e Noble Davi Livres, ‘The Free and the Unfreet’(os livres e não livres), Carrie Catt é citada:

“Há apenas uma maneira de evitar o perigo. Cortar o voto das favelas e dar-lhe as mulheres brancas. [Os homens brancos devem perceber] a utilidade do sufrágio para a mulher como um contrapeso à votação estrangeira, e como um meio de preservar legalmente a supremacia branca no sul do país.” (Citado em The Free and the Unfreet, 296).

Abraçando uma firme crença na inferioridade inerente aos Negros, estas mulheres acreditavam que estes não deviam ser autorizados ao direito do voto antes delas, como não aconteceu até 1920, na XIX Emenda. Embora seja compreensível que as mulheres brancas se sentiram excluídas da agenda política do direito ao voto, sua hostilidade racista e atitudes racistas para com os africanos foram injustificáveis e, portanto, não podem ser negligenciadas.

Como o feminismo é uma agenda política projetada para atender às necessidades e demandas das mulheres brancas, é plausível para esse grupo de mulheres, vítimas da opressão de gênero principalmente, adaptar-se a uma construção teórica com a finalidade de abordar as necessidades de erradicar a subjugação feminina em primeiro lugar. No entanto, colocar a história de todas as mulheres sob a história das mulheres brancas, atribuindo assim a posição definitiva à estas últimas, é um pouco presunçoso. Isso demonstra o máximo de arrogância racial em sugerir que a atividade autêntica das mulheres cabe somente a elas. É importante aqui estabelecer o verdadeiro papel da Mulher Africana como não participante de uma luta em separado, mas em conjunto com o Homem Africano nesta luta tremenda entre as raças. Para ter certeza, Frederick Douglass, ele próprio um forte defensor do feminismo, antes da assinatura em 1863 da Proclamação da Emancipação, compreendeu isto muito bem, como refletido em suas opiniões sobre os direitos das mulheres:

Eu sempre defendi o direito das mulheres ao voto, mas a reinvidicação dos Negros, neste presente, é uma necessidade mais urgente. A afirmação do direito da mulher ao voto não encontra nada, mas o ridículo. Não há nada de maligno no coração do povo em relação a elas, mas quanto ao direito dos Negros ao voto, todo o inferno está solto e a Ku Klux e Reguladores caçam e matam o homem Negro desavidado. O governo deste país ama as mulheres. Elas são as irmãs, mães, esposas e filhas de nossos governantes. (Douglas, 84).

Claramente, sua lealdade mudou quando a questão do direito do homem Negro ao voto tornou-se central para o poder político global na comunidade Negra. É, portanto, ridículo afirmar como feministas mulheres Africanas militantes como Lucy Terry, Stewart Maria e Watkins Frances Harper, líderes abolicionistas; Sojourner Truth, militante, porta-voz da abolição e do sufrágio universal; Harriet Tubman, líder da Underground Railroad (Ferrovia Subterranea); Ida B. Wells, militante anti-linchamento antes do século XX e até mesmo em alguma medida, Anna Julia Cooper, que pelo menos reconhece em, ‘A Voice from the South’(Uma voz do Sul) que “a causa das mulheres é a causa dos homens: (nós) emergimos ou afundamos juntos, diminuímos ou ascendemos, seremos escravos ou livres. (Cooper, 61). Além disso, Mary Church Terrell, presidente da Associação Nacional de Mulheres de Cor, afirmou que “não somos apenas mulheres de cor… deficientes por causa de nosso sexo, mas somos perplexamente ridicularizadas por causa de nossa raça. Não só porque somos mulheres, mas porque somos mulheres de cor.”(Freeman 531).

O resultado final é refletido na afirmação de Iva Carruthers, que resgatou em especial Parks da arena feminista, no início dos anos 80, afirmando que na experiência norte-americana o movimento feminista havia efetivamente deslocado a unidade Negra, tanto no contexto do movimento abolicionista, quanto no movimento de direito ao voto e no movimento dos direitos civis. E assim cruzamos os braços e permitimos que os brancos transformem Harriet Tubman e Rosa Parks em partidárias do feminismo Branco ao invés de defensoras da raça. (Carruthers,18). Coletivamente, todas estas afirmações anteciparam amplamente a ativista Nigeriana Taiwo Ajai, que, um século depois, sustentou que para mulheres de África a “emancipação é inatingível até que os direitos básicos sejam fornecidos a todo povo [Negro].” (Citado em Nitiri’s One is Not a Woman, 62-3).

É igualmente injustificável considerar escritoras Negras e suas personagens femininas como feministas (Negras). De acordo com a internacionalmente aclamada escritora nigeriana, Buchi Emecheta, autora de The Joys of Motherhood (As alegrias da maternidade), as mulheres são freqüentemente autoras e ainda estão sendo ignoradas pelos críticos do sexo masculino ou separadas em categorias como “feminista”, o que significa que suas obras não são avaliados da mesma forma que as dos autores do sexo masculino. “Meus romances não são feministas, eles fazem parte do corpus da literatura Africana e devem ser discutidos como tal… Eu falo de uma variedade de tópicos em meus romances que certamente não são feministas: a guerra, o colonialismo e a exploração da África pelo Ocidente, e muitos outros… Eu não me relaciono muito bem com feministas ocidentais e sempre discordo delas. Elas só estão preocupadas com questões relacionadas a elas, transpondo-as para a África. Feministas ocidentais estão muitas vezes preocupadas com temas periféricos e não focam sua atenção em grandes preocupações. Elas pensam que, centrando-se sobre questões exóticas do “terceiro mundo”, internacionalizam seu feminismo.” (Emecheta, 50)

Há também Their Eyes Were Watching God, de Zora Neale Hurston, cuja protagonista, Janie Mae Crawford, se envolve numa busca de 25 anos pelo homem certo, o que certamente não é uma agenda feminista. A protagonista, acreditando que a sua alma gêmea encontra-se com outras mulheres, apela: “Deus, por favor, não deixe que ele ame ninguém além de mim. Talvez eu esteja sendo tola, mas tem sido tão solitária essa espera. Tenho esperado durante muito tempo.” (Hurston, 180). Depois há So Long a Letter de Mariama Ba, cuja protagonista Ramautoule, insiste na centralidade da família: “Sou daquelas que realizam-se plenamente somente quando faço parte de um casal. Eu entendo sua posição e apesar de respeitar a escolha das mulheres liberadas eu nunca concebi a felicidade fora do casamento.(Mariama Ba, 56). Continuo convencida da inevitável e necessária complementaridade entre homem e mulher… O sucesso de uma família nasce da harmonia de um casal, como a harmonia dos vários instrumentos cria uma sinfonia agradável. O sucesso de uma nação depende, portanto, inevitavelmente, da família.”(88-89).

Além disso, há a Praise Song for the Widow (Canção em Louvor para a Viúva) de Paula Marshall e sua protagonista Ava Johnson, que, como Womanist Africana, vem a aceitar o seu nome autêntico – Avatara. ‘A bem Amada’ de Toni Morrison também aumenta esta lista, onde a autora fala da relação positiva entre homem e mulher através de um de seus personagens masculinos, Sixo: “Ela é amiga da minha mente.  Ela me reúne cara, ela reúne meus pedaços e os traz de volta para mim na ordem certa. Isto é bom, você sabe, quando tem uma mulher amiga de sua mente.” (272-273).

E, finalmente, há Disappearing Acts (Atos Desaparecendo) de Terri McMillan e seus protagonistas Zora e Franklin, todas as quais representam a massa de escritoras/romances negros que não devem ser considerados feministas, ou como tendo um agenda feminista. Um exemplo pungente do primado da família e da necessidade de priorizar a dignidade humana e paridade racial é a história de Ruth Mompati, uma ativista Sul-Africana, que relata sua experiência de ir a um grande auditório para falar sobre os inúmeros corpos decompostos de crianças mortas, vítimas do apartheid. Ela afirma que uma mulher Sul-Africana diante da situação relatada acima, encontra a ordem de suas prioridades em sua luta pela dignidade humana e direitos como mulher ditada pela luta política geral de seu povo, como um todo. A libertação nacional do Sul Africano Negro é um pré-requisito para sua própria libertação e emancipação como uma mulher e uma trabalhadora. (One Is Not a Woman, 112-13).

De certo, essa citação representa a firme opinião de Daphne Ntiri, uma estudiosa Africana perspicaz, especialista em assuntos da mulher. Ela sustenta que “a discriminação humana transcende a discriminação sexual… Os custos do sofrimento humano são elevados quando comparados a um único componente – obstáculo do sexo” (Ntiri, 6).

Essa idéia encontra-se também em The Black Woman Cross-Culturally, de Chioma Steady, que defende que para a mulher negra numa sociedade racista, fatores raciais, ao invés dos sexuais, operam de forma mais consistente em fazer dela um alvo de discriminação e marginalização. Isto se torna aparente quando a “família” é vista como uma unidade de análise. Independentemente do acesso diferenciado de homens e mulheres aos recursos, homens e mulheres brancas, enquanto membros de grupos familiares, compartilham uma quantidade proporcionalmente maior de recursos da terra do que os homens e mulheres negras. Há uma grande diferença entre a discriminação por privilégio e proteção e discriminação por privação e exclusão. (Steady, The Black Woman, 27-28). Aqui sua análise aborda a fonte de discriminação – o racismo, que as mulheres Africanas continuam a resistir.

De acordo com Hudson-Weems, há opressão sobre a mulher Sul-Africana, que trabalha como empregada doméstica e enfermeira em casas de brancos, ganhando salários mínimos; sobre a mulher caribenha em Londres, que é uma secretária ignorada, e à trabalhadora senegalesa ou Africana, desprezada e indesejada na França. Há a fazendeira de subsistência Nigeriana, tal como a mulher Ibo em Enugu e Nsukka, que cultiva todos os dias por um salário mínimo, e uma mulher brasileira operária, que está no mais baixo nível da escala social. Claramente, os problemas dessas mulheres não são infligidos sobre elas apenas porque são mulheres. São vítimas em primeiro lugar, porque são negras, são mais vitimizadas porque são mulheres que vivem em uma sociedade dominada por homens (Hudson-Weems, womanism Africana, 30).

Seja como for, os problemas das mulheres Africanas além do racismo, incluindo brutalidade física, assédio sexual, e subjugação do sexo feminino em geral, exercida tanto dentro quanto fora da comunidade Africana, em última instância tem que ser resolvidos numa base coletiva dentro de suas comunidades. Porque “os homens africanos, infelizmente, internalizaram o sistema patriarcal, em certa medida”, eles devem se reunir com os seus homólogos do sexo feminino e trabalhar para eliminar influências racistas em suas vidas em primeiro lugar, com a percepção de que eles não podem tolerar nenhuma forma de subjugação do sexo feminino (Hudson-Weems, womanism Africana, 63). Na mesma linha, Ntiri resume a posição de Mompati de que o sexismo “é basicamente um problema secundário que surge de preconceitos de classe e  raça ” (Citado em Africana Womanism, 5). Ainda que Steady seja falha em seu auto-posicionamento ( ou em estabelecer sua posição),  ela demonstra no entanto, um forte senso de prioridades na seguinte citação, que é claramente alinhada com o sentido de priorizar as questões raciais inerentes à Africana Womanism:

Independentemente do cargo, as implicações do movimento feminista para a mulher negra são complexas… Vários fatores colocaram a mulher negra à parte, tendo uma ordem diferente de prioridades. Ela é oprimida não simplesmente por causa de seu sexo, mas ostensivamente por causa de sua raça e, para a maioria, essencialmente por causa de sua classe. As mulheres pertencem a diferentes grupos sócio-econômicos e não representam uma categoria universal. Devido à maioria das mulheres negras serem pobres, não é provável que haja alguma alienação do movimento de mulheres proviniente de um aspecto de classe média, que percebe o feminismo como um ataque aos homens ao invés de um ataque a um sistema que prospera na desigualdade (Steady, The Black Woman, 23-24)

Além disso, em seu artigo Women in Africa and the African Diaspora (Mulheres em África e na Diáspora Africana), ela afirma ainda que:

Para a maioria das mulheres negras, a pobreza é um modo de vida. Para a maioria das mulheres negras o racismo também tem sido o obstáculo mais importante na aquisição das necessidades básicas para a sobrevivência. Através da manipulação do racismo, as instituições da economia mundial têem produzido uma situação que afeta negativamente os negros, especialmente as mulheres negras […] O que temos, então, não é simplesmente uma questão de diferenças de sexo ou classe, mas uma situação que, por causa do fator racial, foi moldada em escala nacional e global. (Steady, African Feminism 18-19).

Refletindo exclusivamente sobre a questão de gênero, é ingênuo para a Mulher Africana acreditar que, simplesmente por abordar questões de gênero, estará se engajando em atividades feministas, e, portanto, já que os problemas de gênero também são questões sérias para elas, passam a precisar do feminismo como meio de enfrentar estas preocupações. De fato, algumas estudiosas africanas vão além,  reivindicando que são “feministas originais”, insistindo que as mulheres negras eram feministas muito antes do feminismo, como se o próprio termo fosse essencialmente sagrado a ponto de que devessem ser identificadas ou conectadas a ele. Juram que não deixarão as mulheres brancas deterem o feminismo, travando uma batalha ridícula que revela claramente que o feminismo não pertence a elas, mas que muitas mulheres negras ainda insistem. Seja como for, a Africana Womanism também lida com questões de gênero, porque as feministas não detêm monopolio sobre as questões de gênero. Como ainda estamos operando dentro de um sistema patriarcal, atacar os viéses de gênero não pode traduzir-se em obrigatoriedade de identificação com ou dependência do feminismo/feminismo negro como o único meio viável de enfrentá-los, o que é, obviamente, a prática de muitas fiéis feministas negras em suas tentativas para validar a sua identidade. Seja como for, a psicóloga negra Julia Hare observou, em 1993, no livro The Black Issues in Higher Education (A questão negra no Ensino Superior), que as mulheres que estão chamando a si mesmas de feministas negras precisam de outro conceito que descreva o que são suas preocupações. A raça branca tem um problema de mulher, porque as mulheres eram oprimidas. As pessoas negras têm um problema de homem e de mulher, porque os homens negros são tão oprimidos quanto suas mulheres. (Hare, 15).

Obviamente Hare não era consciente do fato de que esta discussão já havia sido apresentada em arena pública pelos vários trabalhos sobre paradigma da Africana Womanism que apresentei em conferências nacionais, tais como o Conselho Nacional de Estudos Negros, em março de 1986 e 1988, o African Heritage Studies Association, em 1988, bem como a de 1987 e 1988 National Women Studies Association Conference. Estas apresentações públicas culminaram em dois artigos, 1989 – “Conflitos Culturais e de Agenda na Academia: Questões críticas em Estudos da Mulher Africana” no Jornal ocidental de Estudos Negros e “A condição tríplice de Mulheres Negras na Obras de Hurston e Walker” na revista de Estudos Negros.

Na verdade, a questão é que a maioria das mulheres negras não são feministas/ feministas negras, mas sim Mulheres Africanas ativistas, cujas ações são melhor caracterizadas por atividades baseadas na raça, conforme descrito na Africana Womanism. De acordo com Patricia Liggins-Hill, editora geral de Call and Response: “De todos os modelos teóricos, o de Hudson-Weems é que melhor descreve a perspectiva de base racial de muitas defensoras dos direitos das mulheres negras, começando com Maria W. Stewart e W. Frances Harper no início do século XIX (1370).” Na verdade, as Mulheres Africanas ativistas podem ser vistas como modelos para outras teorias de gênero, em algum grau. Por exemplo, as mulheres negras não têm ficado caladas e sem voz, como parece ter sido o caso das feministas em geral, que aspiram essa qualidade e, assim, tornaram “quebrar o silêncio” e “encontrar a voz ” objetivos importantes para elas. Esta necessidade é expressa por Betty Friedan, em The Feminine Mystique, onde  ela descreve o sentimento de desencanto com o trabalho familiar penoso por parte de mulheres brancas e seu desejo de ser livre, afirmando que há uma agitação estranha, um sentimento de insatisfação, um anseio que as mulheres brancas sofreram em meados do século XX nos Estados Unidos. Cada esposa suburbana lutou sozinha contra isto enquanto fazia as camas, ia ao supermercado, encerava os móveis, comia sanduíches de manteiga de amendoim com as crianças ou deitava ao lado do marido durante a noite, ela tinha medo até de perguntar a si mesma a questão silenciosa – isso é tudo?  (Friedan, 11). Esta dificilmente seria a reação de mulheres negras, que responderiam prontamente que se isso é tudo que elas poderiam esperar de um relacionamento, então o relacionamento estaria em apuros.

Apesar da posição geral na academia, Mulheres Africanas não vêem os seus homólogos masculinos como seu principal inimigo, como o faz a feminista branca, que está travando uma batalha milenar com o seu homólogo por subjugá-la como sua propriedade. De acordo com a primeira mulher dramaturga da Nigéria, ‘Zulu Sofola:

Isto [o sistema dicotômico de gênero entre homens e Mulheres Africanas] não é uma batalha onde a mulher luta para conquistar alguns poderes dos homens, mas [que], conseqüentemente, ajustou-se ao perpétuo conflito de gênero que tem envenenado agora a saudável ordem social anterior de África tradicional. (Citado por Sofola em Africana em womanism, 47).

Além disso, contrariamente a necessidade das feministas brancas de serem iguais aos homens, como seres humanos, as mulheres negras sempre foram iguais aos seus pares do sexo masculino, apesar das tentativas de alguns homens africanos de subjugá-las em alguns níveis. De acordo com Angela Davis, em Mulheres, Raça e Classe:

O tema que sobressai da vida doméstica nas senzalas [americanas]  é de igualdade sexual. O trabalho que os escravizados realizaram pra si próprio e não para o engrandecimento de seus mestres foi realizado em termos de igualdade. Dentro dos limites de sua vida familiar e comunitária, portanto, os negros transformaram essa igualdade negativa que emanava da opressão que sofreram igualmente enquanto escravos em uma qualidade positiva: o igualitarismo que caracterizam suas relações sociais. (Davis, 18).

Além disso, durante a escravidão americana, as Mulheres Africanas foram tão duramente tratadas, física e mentalmente, assim como seus pares do sexo masculino, o que invalida o alinhamento de Mulheres Africanas e mulheres brancas como iguais na luta. Basta refletir sobre a fala “Eu não sou uma mulher?”, de  Sojourner Truth, em 1852; oração não solicitada que ela fez na Convenção de Direito das Mulheres, exclusivamente branca, em Akron, Ohio:

“Bem, crianças, onde existe muita bagunça, deve ter alguma coisa fora da ordem, Eu penso que tanto os negros do sul, quanto as mulheres no norte, estão falando sobre direitos.O Homem Branco logo estará com problemas. Mas o que tudo isso quer dizer? Aquele homem ali em cima diz que as mulheres precisam ser ajudadas a subir nas carruagens, e que devem ser ajudadas a passar pelas poças e que devem ter os melhores lugares em qualquer situação. Ninguem me ajudou com carruagens, ou poças de lama, ou a chegar num lugar melhor. E não sou eu uma mulher? Olhem para mim! Olhem para o meu braço! Tenho arado e plantado e nenhum homem poderia dirigir-se a mim! E não sou eu uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto um homem e receber chicotada também! E não sou eu uma mulher?” (Truth, 104).

De fato, as tarefas infindáveis da mulher africana as aguardavam dentro e fora de casa. Por certo, homens e mulheres africanas foram parceiros iguais na luta contra a opressão desde o início. Novamente, eles não poderiam bancar a divisão baseada no sexo. Em algumas sociedades tradicionais, a dominação masculina era uma característica, mas na experiência de escravização Africano-Americana, homens e mulheres africanas eram vistos da mesma forma por parte dos proprietários de escravos, negando desse modo, as noções tradicionais (tanto Africanas quanto européias) de papéis masculinos ou femininos.

A socióloga negra Joyce Ladner, em Tomorrow’s Tomorrow (O amanhã do amanhã), também comenta a opinião sobre a opinião das Mulheres Negras, que não vêem o Homem Negro como seu principal inimigo: “As mulheres negras não percebem os homens negros como inimigos, consideram como o inimigo as forças mais amplas e opressivas da sociedade que subjugam os homens, mulheres e crianças negras”. (Ladner, 277-278).

Portanto, o homem negro não tem poder institucional para oprimir suas mulheres ou qualquer pessoa com a mesma intensidade que fazem os homens brancos, no caso de suas mulheres e pessoas em geral. Na análise final,  “mulheres e homens africanos eram iguais no sentido de que nenhum gênero exercia poder econômico sobre o outro” (Boulin, 49). Dadas estas realidades, o argumento de Germaine Greer de que “os homens são o inimigo, eles sabem disso – ou pelo menos eles sabem que há uma guerra dos sexos acontecendo, normalmente uma de caráter frio”, parece inaplicável à circunstância das Mulheres Africanas e da comunidade africana em geral (Lashmar, 33).

Hoje, as Mulheres Africanas devem insistir que são parceiras iguais em relacionamento, e que a subjugação feminina passiva não foi, nem estava e nem é norma em sua comunidade. De acordo com Morrison, em What the Black Woman Thinks About Women’s Lib (O que a mulher negra pensa da liberação da mulher):

… durante anos as mulheres negras aceitaram essa raiva, mesmo considerando essa aceitação como um dever desagradável. Mas, ao fazê-lo, frequentemente se queixavam, e parece nunca terem se transformado nas verdadeiras escravas que as mulheres brancas vêem em sua própria história. (Morrison, 63).

De fato,  as Mulheres Africanas não tem essa sensação de impotência de que falam as mulheres brancas, nem foram silenciadas ou tornadas áfonas por seus pares masculinos, como é a experiência mais marcante das mulheres brancas. Os rótulos ‘matriarca negra’, ‘safira’ e ‘vadia’ atribuidos a mulher africana para descrever sua personalidade e caráter contradizem nitidamente a noção da mulher africana como muda ou impotente. Além disso, ao contrário da mulher branca, a mulher africana nem foi privilegiada, nem colocada em um pedestal para ser protegida e apoiada.

Em conclusão, como eu refleti, em meados dos anos 80, no estágio embrionário de ‘Africana Womanism’, que era anteriormente referido como ‘black womanism’, achei necessário nomear e definir as verdadeiras preocupações, prioridades e atividades das mulheres negras. Como participei de diálogos internacionais em conferências internacionais, pautando as Mulheres Africanas e o seu verdadeiro papel dentro do movimento feminista moderno, tornou-se evidente para mim que as Mulheres Africanas devem comprometer-se globalmente, em suas vidas privadas e públicas, a apoiar suas contra-partes do sexo masculino para a segurança de suas famílias e comunidades como prioridade número um. Refletindo sobre a história do povo africano e sobre as mulheres em particular, minha conclusão foi que durante séculos as mulheres de África se engajaram em atividades Africana Womanist, demonstrando uma priorização de raça como ativistas coletivas e que esse legado remonta ao rico legado da feminilidade africana. Assim, a existência desse fenômeno – Africana Womanism -, não o nome em si,  não é nova, mas sim uma prática que remonta à África. Para ser mais precisa, Africana Womanism tem como modelo as mulheres guerreiras africanas e move-se no sentido de criar um paradigma em relação a este antigo legado de ativismo das Mulheres Africanas.  Os resultados, nas palavras de Delores Aldridge, em ‘Towards Integrating Africana Women into Africana Studies’ (Rumo a Integração da Mulher Africana em Estudos Africanos) é que trata-se de um “trabalho revolucionário em Africana Womanism, já que não tem paralelo como uma nova forma de compreensão da mulher africana (196). E assim, ao nos voltarmos globalmente para a luta coletiva e liderança do povo africano pela sobrevivência de toda nossa família/comunidade, não nos esqueçamos de nossos pontos fortes do passado, na verdade, o rico e glorioso legado de nossa ancestralidade africana e, de fato, o rico legado da feminilidade Africana.

 

Referências:

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Aldridge, D. (2000). “Towards Integrating Africana Women into Africana Studies” in Out of the Revolution: Studies in Africana Studies. Delores Aldridge and Charlene Young, (eds.) Lanham, MD: Lexington Books, 191-202.

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Clenora Hudson-Weems “Africana Womanism: the flip side of a coin“. Western Journal of Black Studies, The. FindArticles.com. 30 Jul, 2011. http://findarticles.com/p/articles/mi_go2877/is_3_25/ai_n28890867/


[1] Cleonora Hudson-Weems é professora de inglês na Universidade de Missouri – Columbia,  autora de Africana Womanism: Reclaiming Ourselves (Recuperando-se) e Emmett Till: The Sacrificial Lamb of the Civil Rights Movement (Emmett Till: O Cordeiro Sacrificado do Movimento dos Direitos Civis), desenvolvido a partir da sua dissertação de doutorado em 1988, a primeira a tomar posição sobre o linchamento brutal de Till, em 28 de agosto de 1955, como o verdadeiro catalisador do movimento moderno dos Direitos Civis. Ela é co-autora de Toni Morrison, o primeiro livro da autora a ganhar o Prêmio Nobel. Seu próximo livro editado é o Contemporary Africana Theory and Thought (Teoria e Pensamento Africanos Contemporâneos). Seu roteiro de filme, Emmett, está com um produtor de Hollywood, o filme rodará pela Media Firelight em Nova York, baseado em seu livro Emmett Till.

[2] “Woman” significa “mulher” em inglês. Optou-se por manter os termos no original.

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Curso de Introdução – Partido dos Panteras Negras


Como se inscrever:

1- Preencha a ficha de inscrição – Curso BPP e nos encaminhe para o e-mail quilombouniapp@gmail.com.

2- Após receber a confirmação por e-mail, realize a contribuição de 10,00 reais, destinada a cobrir os custos da atividade, que pode ser feita no dia 12/02.

3- As inscrições estão sujeitas à disponibilidade de vagas.

Outras informações importantes:

“A UNIAPP é uma organização autônoma, apartidária e sem fins lucrativos, voltada para Educação Popular Afrocentrada. Nossos cursos e atividades são de caráter político, se fundamentam na ação educativa enquanto processo de transformação social e não na falsa idéia de “ciência pela ciência”; portanto, nosso objetivo não é fornecer um “produto” pelo qual expectadores e expectadoras “pagam” e são certificados. As contribuições financeiras são utilizadas estritamente para cobrir os custos de execução do curso (material didático, manutenção do espaço físico, alimentação, etc) e não abragem pro labore. Os certificados emitidos pela UNIAPP, que não possui registro formal, atendem principalmente à necessidade de controle interno da organização e são – para nós – uma representação material da construção coletiva de saberes e atitudes, não o fim último de nossas atividades.”

RBG!

UNIAPP

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Palestra-Itinerante: Revolta dos Malês

 

NÃO ESPERE A PRINCESA ISABEL!!!!!!!!!!

Dia 28 de Janeiro, junte-se à UNIAPP na Revolta dos Malês

Palestra Intinerante realizada no cenário onde , em 1835, Africanos Islamizados tentaram tomar o poder da cidade e libertarem-se da Escravidão. Sábado 28 de Janeiro às 17 horas – Saída no Largo do Carmo – Santo Antônio Participação Gratuita UNIAPP – Informação e conhecimento é Poder Negro posto em prática!!!!!

https://quilombouniapp.wordpress.com/

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“A Destruição da Civilização Preta” – trecho

          “A DESTRUIÇÃO DA CIVILIZAÇÃO PRETA

Chancellor Williams

Tradução UNIAPP

         Quando, e se, o povo Preto realmente se organizar como uma raça em seus diferentes centros populacionais, eles irão descobrir que a ideologia básica e orientadora que eles agora procuram e precisam tanto é incorporada em sua própria filosofia tradicional e sistema constitucional – simplesmente esperando para ser extraída e estabelecida. E enquanto o trabalho nesse campo não foi desenvolvido ainda mais, alguns dos princípios mais fundamentais da ciência política Africana e filosofia de vida podem ser encontrados nas páginas que se seguem.

CAPÍTULO VI

A Constituição Africana:

Nascimento da Democracia

EM  NOSSA VISUALIZAÇÃO INTRODUTÓRIA DA HISTÓRIA AFRICANA referências foram feitas ao ramo de origem comum do povo que o mundo dos brancos prefere chamar de “Negro”. Que estamos aqui estudando uma única raça, não raças, e um só povo, não povos, é uma teoria e fato maior da história Preta e uma de nossas principais orientações. Estamos, portanto, principalmente preocupados apenas com as coisas que foram, caracteristicamente, Africanas, praticamente universal entre eles de um extremo do continente a outro e que, portanto, indica uma cultura ancestral comum em um centro comum da civilização Preta. Nisto nos sustentamos.

Nesta perspectiva, a Constituição Africana é discutida como um corpo de teorias fundamentais, princípios e práticas extraídas das leis consuetudinárias que regiam as sociedades Pretas Africanas desde os primeiros tempos. A primeira tarefa foi a de separar as  instituições tradicionais Africanas daquelas influenciadas posteriormente por asiáticos ou europeus, ou um reflexo de qualquer tipo de influência externa. Outra tarefa foi determinar se uma instituição chamada “Africana” foi em face Africana no sentido de ser universal entre os Negros – uma instituição continental em contraposição a algo peculiar a uma ou mais tribos, nações ou regiões Africanas.  Esta distinção é importante aqui, porque muitas vezes coisas são caracterizadas como “Africanas” mas só se aplicam a certas sociedades. Estas representam o desenvolvimento de todo o complexo de variações culturais sobre os quais escritores Ocidentais discorrem ao enfatizar a “grande diferença étnica” entre o povo. (Isto não é acidental ou sem intenção. O medo caucasiano sobre a possibilidade de Negros desenvolverem um sentido de unicidade  e unidade de ação é profundo e secular. Muitos esquemas sutis são usados para manter divisão – e com sucesso.)

* * *

Um estudante de história comparada pode ver sem dificuldade que vários povos espalhados por todo o mundo por vezes desenvolvem instituições semelhantes sem nunca ter tido um contato qualquer. Isto é igualmente verdadeiro para os grupos mais isolados. Circunstâncias semelhantes podem produzir idéias semelhantes e padrões culturais – tudo isto pode confirmar a teoria cartesiana sobre a distribuição igual de senso comum entre toda a humanidade. Pelo simplesmente “fazer o que vem naturalmente”, uma sociedade, afastada 10 mil milhas através de oceanos distantes. Portanto, nem a teoria da “Influência Externa” nem a da origem comum de um povo largamente segmentado devem ser apressadamente afirmadas. Nós mantemos isso como verdade até mesmo no estudo de uma raça basicamente no mesmo ambiente de um mesmo continente. A prova ainda deve ser conclusiva.

Conselho dos Anciãos - Etnia Megbetu

Conselho dos Anciãos - Etnia Megbetu

ORIGEM DA DEMOCRACIA AFRICANA

As observações anteriores sugerem que a Constituição de qualquer povo ou nação, ágrafo ou não, deriva de suas regras habituais da vida; e que o que hoje chamamos de “democracia” era geralmente o sistema primordial entre vários povos em todo o mundo antigo. O que era relativamente um novo incremento era a monarquia absoluta.

Entre os Negros, as instituições democráticas evoluíram e funcionaram em um sistema sócio-econômico e político que escritores Ocidentais chamam de “sociedades sem Estado” ou “Sociedades sem chefes.” Quando estas sociedades eram chamadas de democracias “primitivas”, os escritores estavam de fato fazendo exatamente o oposto do que pretendiam. Porque, longe de ser apenas um termo descritivo para povos atrasados, “primitivo” também significa “o primeiro,” os precursores. Além disso, muitas dessas “sociedades sem estado” foram os estados de fato sem, necessariamente, estar em conformidade com um determinado padrão ocidental estrutural de um Estado. Na verdade, o que é chamado de “sociedade sem estado” na África dificilmente seria classificado como tal no Ocidente, para a definição ocidental de um Estado não estão inclusas as necessidades das pessoas que ocupam um determinado território, e que vivem sob seu próprio governo independente do controle externo.

Esses fatos são estabelecidos no início, porque tanto o sistema constitucional e sua prole, a democracia Africana, se originaram em “sociedades sem chefe”. E, o que é ainda mais significativo, a democracia atingiu seu mais alto desenvolvimento aqui, onde as pessoas realmente se governaram sem chefes, onde o auto-governo foi um modo de vida, e “lei e ordem” eram tidos como garantidos.

O esquema básico estrutural destes estados permaneceu o mesmo em toda a África. Haviam as variações usuais e exceções. A coisa surpreendente era e é a uniformidade – incrível como os elementos mais básicos da civilização Preta antiga esteviveram guardados, em todo o continente, por todos esses grupos dispersos e isolados, apesar do contínuo impacto das forças de destruição inimagináveis.

Os laços e responsabilidades de linhagem e o sistema grau-etário ou grupo-idade foram as primeiras instituições através das quais a constituição Africana funcionou, e nas quais sua democracia nasceu. Foi uma rede de parentes e parentesco alegado, todos eles descendentes do mesmo ancestral ou ancestrais relacionados. Todos podiam viver na mesma comunidade ou estado, mas muitas vezes eles estavam espalhados e dispersos em sociedades separadas e independentes.

A forma ancestral da qual eles reivindicam descender sempre foi “grande” por causa de algum feito incrível ou realizações extraordinárias para ser ressaltadas pelos crescentes falsos clamores de canções de louvor. Cada geração de poetas e contadores de histórias deu ampla imaginação a glória romântica. Mitos nasceram desta forma, e os posteriores conceitos de realeza e divindade ganharam apoio da mesma fonte. Em domínios contíguos independentes a linhagem foi um fator poderoso em prover a base e estímulo para a formação posterior de reinos e impérios. Nenhum povo na história Africana usou o conceito de laços de parentesco de forma mais eficaz do que a Lunda na notável expansão do seu império. Ainda mais notável do que a expansão territorial do Império Lunda era sua idéia de uma nação como uma grande fraternidade. Assim, em vez de primeiro tentar conquistar e anexar pela força, eles se aproximavam de Estados independentes e procuravam demonstrar a partir da história oral que todos eles eram apenas segmentos de uma linhagem comum – todos irmãos de fato. Parece que a maioria dos estados acreditava no princípio de uma ancestralidade comum e prontamente se tornaram membros do Império; outros ainda não estavam convencidos ou preferiram manter-se separados e independentes de qualquer maneira. Estes foram, em geral, conquistados e receberam um status inferior na nação do que aqueles que se uniram voluntariamente.

Mas estamos considerando linhagem antes da ascensão de reinos e em particular, a linhagem como a força organizadora e regente em estados sem chefes ou reis, onde o consenso da comunidade era a lei suprema que qualquer um poderia ignorar apenas por sua conta e risco.

Haviam aspectos interessantes espalhados ao longo de um vasto território, cada um independente do outros, mas todos plenamente conscientes (e ao ​​contrário daqueles na terra Lunda, que tiveram que ser convencidos) de que pertenciam a uma linhagem comum. O Parentesco encontrou expressão no comércio e em confederações temporárias quando atacados por inimigos externos (aqueles não considerados membros da sua linhagem).

Havia desavenças e guerras entre estes Estados membros da linhagem comum. O aspecto altamente humano da guerra Africana que intriga muitos visitantes ocidentais, sem dúvida, foi desenvolvido a partir do reconhecimento generalizado das linhagem ou laços de parentesco. Nas muito anunciadas “guerras tribais” o objetivo principal era sobrepujar ou assustar o adversário, não matar a todos, se isto podesse ser evitado. Daí as máscaras horríveis e gritos de gelar o sangue por eles usados. Mesmo quando o inimigo era derrotado ou completamente cercado, rotas de fuga eram fornecidas, os vencedores fingindo não estar cientes delas. De fato, há relatos de “períodos de descanso,”  solicitados quando nenhum dos lados perecia estar ganhando. Nestes momentos guerreiros de ambos os lados podiam se encontrar num córrego próximo ao se refrescar, brincar uns com os outros, rir das piadas uns dos outros até que tambores, gongos ou trombetas soassem pela resolução da batalha. Esta era a África primordial. Como isto se transformou numa guerra de matar um ao outro, de linhagem em não linhagem?  Como aconteceu que, mesmo hoje em nossa moderna e “avançada” civilização, algumas das mais mortíferas e inumanas das guerras são lutadas por Negros contra Negros – e isto em face  de sua crescente consciência de que eles são de fato um único povo? Está claro que na África primordial “guerra” não era muito mais que um jogo assustador quando entre eles mesmos. Foi uma mudança radical trazida por incursões que lidavam com a morte vindas da Ásia e Europa? Isto levanta outras questões de grande urgência: Somos realmente civilizados hoje? Não substituímos os aparatos da civilização – nossos triunfos na ciência, tecnologia, e a revolução dos computadores – pela civilização em si. Basta dizer aqui que o constante enfraquecimento dos laços de linhagem e do espírito de unidade entre os Negros está também enfraquecendo o senso de irmandade e unidade entre os Negros. Hoje isto realmente encontra pouca expressão exceto em algumas linguagens ou grupos tribais, e essas mantém isso mais e mais como uma força de coesão para ser utilizada contra todos os outros.

Anciões Bimbilla

Anciões Bimbilla

Linhagem, então, era a mais poderosa e efetiva força da unidade e estabilidade na África primordial, e isto era tão verdade que o estado poderia ser autogovernado sem a necessidade de um regente individual, chefe ou rei. Todos eram advogados porquê praticamente todos sabiam as leis consuetudinárias.

Os graus etários e os grupo-idade (também chamados classes) eram uma estruturas organizacionais específicas através da qual a sociedade funcionava.

Classificação era determinada pelo período no qual alguém nascia. Todas as pessoas nascidas no mesmo ano, ou dentro de um geral mais bem definido período antes ou após um dado ano pertenciam a uma mesmo grau etário. Cada graduação cobria um bloco de anos:  O primeiro grau etário poderia incluir todas as crianças até doze anos, a segunda graduação dos treze aos dezoito, ao terceiro grau, dos dezenove aos vinte oito; ao quarto grau, dos vinte e nove aos quarenta e o quinto grau, acima de quarenta. Existia antiguidade dentro de cada grau de acordo com a idade e inteligência. Inteligência e sabedoria eram supostamente adequadas à idade de alguém. De outra forma, a filosofia africana que atribui muita deferência aos anciões foi baseada na premissa de que, todas as outras coisas sendo iguais, aqueles que viveram no mundo e experimentaram a vida antes deveriam saber mais que os outros. Essa qualificação é importante porquê isto seria posteriormente aplicado na eleição de chefes e reis. Ser um herdeiro do trono não era suficiente. Uma pessoa teria que atingir esta qualificação ou ser preterido. Além disso, ser velho ou o mais velho em um grupo não garantia o respeito usual se este alguém fosse preguiçoso, encrenqueiro, ou um tolo.

Educação Primordial

O inter-relacionamento de responsabilidades de várias graduações eram dimensionadas para o suave funcionamento dos estados primordiais. Cada grau tinha seu próprio papel social, econômico e político.  O conjunto infantil cobria os anos de jogos e brincadeiras. Em meados do sexto ou sétimo ano, no entanto,  treinamento geral e alguns pequenos trabalhos começam a ser misturados com brincadeiras. A educação primária inclui contar histórias, aritmética mental, músicas comunitárias e danças, aprendizado do nome de muitos animais e pássaros, a identificação de cobras venenosas, plantas e árvores locais e como correr e escalar rapidamente quando perseguido por animais perigosos. Treinamento infantil incluía também conhecer e se associar com membros de um grupo etário como irmãs e irmãos e considerá-los irmãos e irmãs até a morte e depois dela. Pequenas tarefas perto da casa se tornam rotina, recolher galhos de madeira para o fogo, trazer água, tanger o rebanho, alimentar as galinhas ou, tratando-se de uma garota, cuidar de um bebê ou das crianças menores, imitar a mãe cozinhando ou tentando aprender a costurar ou tricotar. A coisa mais próxima de um papel político de um garoto na juventude era quando ele carregava o banquinho do pai ou do tio para as reuniões do conselho da aldeia e ouvia intermináveis debates.

O próximo grau após a infância é adolescência até os dezoito. (Este período, evidentemente, varia em diferentes sociedades). Agora o treinamento e as responsabilidades sobem de nível. O tempo para brincadeiras ou terminou ou é muito limitado. Educação e treinamento se tornam mais complexos e extensos. O futuro inteiro de um jovem dependerá do desempenho neste nível etário. Ele ou ela será marcado por sucesso ou falha neste segundo conjunto etário que começa aos 13 anos. O garoto é agora requisitado a aprender a história inteira de sua família e de sua sociedade, a geografia da região, nomes dos estados vizinhos e a natureza das relações com eles, lidar com armas, caçar como uma arte hábil,  cálculos rápidos, capinar para o plantio, táticas militares, cuidados e alimentação do rebanho, a divisão do trabalho entre homens e mulheres, táticas comércio, regras de boas maneiras em casa e no mundo exterior, esportes competitivos, exemplos de liderança para o grupo etário infantil inferior e responsabilidade para com o grupo etário superior. O sistema de aprendizado no qual alguém se torna um hábil artesão é um dos mais importantes do Segundo nível de atividades do grupo-idade. Esta é outra razão porque este grau etário é o mais crucial de todos. Ao final deste, a pessoa atravessará os ritos de iniciação para o nível elevado da masculinidade. Os períodos do grupo etário das garotas difere do dos garotos. A introdução a papéis femininos, por exemplo, acontece antes. Elas tem o mesmo treinamento intelectual que os garotos: história, geografia, cálculos rápidos, poesia, música e dança. O treinamento em cuidados com crianças, afazeres domésticos, jardinagem, cozinhar, compra e venda, relações sociais com particular ênfase em boas maneiras – isso é o básico dentro da educação e treinamento do grau etário dos jovens neste nível. Afazeres domésticos, mencionado acima, não revela o importante tipo de treinamento que está por trás deste título, para o mais importante alvo do treinamento ser “Como ser uma esposa bem sucedida” – uma esposa duradouramente desejada. Em muitas sociedades, este treinamento, realizado por mulheres mais velhas longe da comunidade, incluem a arte de da excitação sexual preliminar, variação de posições, limpeza na relação sexual e, em miúdos, um fazer e um não fazer nas relações intimas. Estas sociedades Negras primordiais são de muitas maneiras muito à frente da moderna.

Garotos no Lesotho, pastoreando...

Garotos no Lesotho, pastoreando...

As duas primeiras graduações podem ser designadas como A e B, a terceira como C e a quarta como D e a final e mais alta graduação como E. A graduação C, 19 até os 28 anos, é o grupo masculino e da primeira-linha de ação. Seus membros lideram na caçadas, construção comunitária, preparo dos campos para o plantio, formam as várias guildas de ofícios industriais (sociedades secretas, cada uma com guardando os processos de sua arte),  protegendo os rebanhos das pastagens distantes, a manutenção de estradas e caminhos entre as aldeias, policiando área quando necessário, e formando o baluarte da força combativa. As jovens mulheres na graduação C são geralmente esposas. Elas são responsáveis pelo plantio e cuidado com os cultivos  ( o trabalho pesado de capinar, etc, já foi realizado pelos homens), as operações dos mercados (justifica a ênfase na aritmética mental nos seus treinamentos), visitar e cuidar dos doentes e idosos, formação das sociedades femininas (os meios de comunicação para as influencias social, econômica e, indireta mais muito real, influência política), e ele são responsáveis por e em supremo controle de todos os problemas referentes ao lar. Naquelas sociedades que possuem forças de combate femininas, o exército feminino era formado quase que inteiramente pelo grau etário C.

Em termos de direitos constitucionais e de deveres ( os dois eram inseparáveis na África primordial), não havia muita diferença entre o grupo etário C e o grupo etário D. Antiguidade era a significante diferença, desde que D era dos 29 aos 40 anos. Se de outra forma qualificados, membros nesta classe que chegaram aos 36 anos eram elegíveis a candidatos ao mais altamente honrado corpo na sociedade, o conselho dos anciões – uma honra e privilégio especialmente reservado aos que possuíam 40 ou mais, grupo E.

O Trono Dourado - Fundamento Político e Espiritual da Nação Ashanti

O Trono Dourado - Fundamento Político e Espiritual da Nação Ashanti

 O sistema judicial primordial

Nos estados sem chefe, a função de ancião era completamente aconselhadora. Por esta razão eles raramente se encontravam como um conselho. Uma reunião de conselho poderia ser convocada pelo Ancião mais velho em caso de extrema emergência. Problemas envolvendo famílias ou clãs poderiam ser determinados pelo conselho familiar, cada família ou clã tendo seu próprio ancião. Conflitos entre famílias ou clãs poderiam ser trazidos à resolução ante a qualquer ancião mutuamente aceito. O julgamento do ancião não estava atrelado as partes na disputa. Isso era a teoria constitucional. Se o caso era “grande” e grave e os disputantes estavam insatisfeitos com a decisão do ancião sobre ele, eles poderiam convocar um ou mais anciões adicionais para ouvir e dar seu parecer sobre o caso. Suas decisões também eram conselhos e podiam ser desconsideradas pelas partes na ação. Sim, os julgamentos aconselhadores dos anciões poderiam ser ignorados segundo a lei constitucional Africana Ancestral. Ainda sobre a operação prática das mesmas constituições, os disputantes poderiam ignorar o julgamento dos anciões por seu próprio risco. Ignorar os anciões era considerado ignorar a própria comunidade. A única exceção para isso, eram nos casos onde um ancião ou anciões tomaram uma decisão obviamente ruim. Mesmo quando não é deixado aos contestantes dizer se o julgamento é bom o ruim.

Ainda assim não era tarefa dos contestantes dizer se o julgamento tinha sido bom ou ruim. A comunidade que decidia porque a comunidade era que estava representada na multidão sempre presente naquelas audiências. Eles, as pessoas presentes, sempre indicavam suas opiniões pelas expressões e gestos de aprovação ou reprovação das decisões tomadas.

A teoria e princípio constitucional aqui são especialmente significantes por conta da importante forma que se tomou em todas as sociedades Africanas em toda parte do continente à medida que elas evoluíram de sociedades sem chefes para estados centralizados com chefes, reis e imperadores.

Com esse desenvolvimento constitucional de caracter continental o chefe ou rei se tornou o porta-voz do seu povo e um instrumento para fazer a vontade desse. Eles continuavam sem ter nenhum “governante” no sentido de como era usado na Europa e na Ásia. Em questões em disputa ele estava na mesma posição das partes que estava em litígio nos estados sem chefe. Como eles, sob a constituição, ele tinha poder absoluto em teoria, e em teoria ele podia ignorar o conselho e fazer exatamente o que quisesse mas na prática, como as pessoas que estavam em disputa, ele não ousava desafiar o conselho dos Anciões, que também tinha evoluído e se tornado “o povo” – seus representantes diretos.

Africanos geralmente preferem permanecer nas teorias constitucionais e não nas práticas constitucionais, eles falam orgulhosamente sobre a liberdade e poderes absolutos do chefe ou rei¹. Alguns vão até dizer que o rei “possuía toda terra” do país. Eles não estão tentando enganar. Palavras de outro idioma geralmente falham em traduzir significados e conceitos do povo. Quando eles dizem que o rei é supremo ou tem poder absoluto eles querem dizer que ele tem poder absoluto para defender a vontade do povo. Isso era tão bem entendido que o poder supremo repousava no povo que nunca se achou necessário falar sobre isso. Do mesmo modo, eles diriam, e diriam orgulhosamente, o rei “possui toda terra no país” já que qualquer pessoa que não fosse tola saberia que não, pois ninguém possuía possuía a terra (mais uma vez no sentido ocidental) e que o principal papel do rei era o de guardião e supervisor, sendo seu principal dever o de cuidar para que a terra fosse distribuída entre todas as famílias de maneira justa.

Nas sociedades sem chefes os anciões eram os administradores da distribuição de terra às famílias. Definitivamente, nada contribuiu mais para a eficiência e sucesso do governo autônomo sem governantes do que o sistema no qual cada grau etário era responsável pela conduta de seus membros, e no qual antes que qualquer mau comportamento pudesse chegar até algum conselho de grau etário era resolvido pelo seu conselho familiar. Isso não significava indulgência. significava exatamente o oposto, porque cada família tinha ciúme de sua honra e imagem perante a comunidade, e quaisquer de seus membros cujo comportamento refletisse de forma desfavorável na família estaria antes de tudo em problemas perante a própria família. O resultado disso era que os conselhos de grau etário raramente tinham um caso e, obviamente, esse governo autônomo, começando com a unidade social básica, a família, reduziu drasticamente o numero de casos que chegava até os anciões. Colocado de outra maneira, cada família policiava a si mesma, cada grau etário policiava a si mesmo, de modo que sobrava pouco ou nada para a comunidade como um todo fazer. Cada grupo elegia seus próprios líderes. Esses se reuniam com outros líderes de grau etário a respeito de assuntos da comunidade que ultrapassavam linhas dos graus etários.

Foi portanto nas sociedades sem chefes ou reis que a democracia Africana nasceu e onde o conceito que o povo é soberano era tão natural quanto respirar. E é por isso que na África tradicional os direitos do indivíduo nunca vinham antes do direitos da comunidade. Liberdade individual era ilimitada até que se chocasse com os interesses ou bem-estar da comunidade. Isto também é a razão pela qual uma evolução até um estado altamente centralizado ainda conserva o rei sob lei comunal, não acima dela, e definitivamente sem capacidade de fazer o que bem entenda.

Esse povo autogovernado não tinha uma sociedade utópica em um sentido idealista. A sua era uma sociedade prática em todos os sentidos. As leis eram leis naturais, e ordem e justiça prevaleciam porque a sociedade não poderia sobreviver de outra maneira. O seu era, de fato, um governo do povo; O seu era, de fato, não uma teoria, um governo pelo povo; e era de fato, um governo para o povo. Que esse tipo de governo “tenha perecido” é outro fato que nós agora chamamos de “progresso moderno”.

Devemos notar depois o impacto de alguns dos avanços previamente mencionados na constituição tradicional, em particular os ocorridos nos reestabelecidos estados centralizados “migratórios”. Entretanto, seria bom se destacássemos algumas das disposições essenciais dessa constituição; outra vez, o objetivo é estabelecer – e estabelecer em termos específicos – as reais instituições totalmente Africanas que os Africanos perderam e das quais seus descendentes não têm sequer uma lembrança. Um dos mais grandiosos sistemas constitucionais do mundo foi uma de suas perdas trágicas.

Algumas teorias e princípios da Constituição da África Primordial & Os Direitos Fundamentais do Povo Africano ( Compiladas por Chancelor Williams)
( Diferentes versões e modificações das mesmas leis ocorrem nas suas diferentes sociedades)

  1. O povo é a origem e ponto final de todo poder
  2. Os direitos das comunidades de pessoas são, e por direito devem ser, superiores a quaisquer direitos individuais, inclusive dos chefes e reis. a- A vontade do povo é a lei suprema! b- Chefes e Reis estão abaixo da lei, e não acima dela.
  3. Reis, Chefes e Anciãos são líderes e não legisladores. Eles são os representantes eleitos do povo e instrumentos para executar a sua vontade.
  4. Governo e povo são um e o mesmo.
  5. A família é reconhecida como a primeira unidade política, social, judicial e econômica da sociedade; o conselho familiar deve funcionar como uma corte empoderada para julgar todos os assuntos internos envolvendo apenas membros da Família Estendida.
  6. O Mais Velho de toda Família Estendida ou Clã é seu representante escolhido para o Conselho.
  7. Decisões do Conselho são tomadas pelos Mais Velhos. O Chefe ou Rei deve permanecer em silêncio. Mesmo quando o Conselho anuncia sua decisão, é através do orador ( lingüista). Decretos ou leis são expostos da mesma maneira, para assegurar que a voz do Chefe ou Rei é a “voz do povo”. ( Esse é um exemplo de costume que encontra muitas variações)
  8. A Terra não pertence a ninguém. É um presente dos Deuses para a humanidade, como uma herança sagrada, transmitida por nossos antepassados como uma ligação entre os vivos e os mortos, para ser continuada por toda a descendência até a última geração.
  9. Cada Família tem direito a Terra, livre de impostos, em extensão suficiente para o seu bem-estar econômico; Posto que o direito de oportunidade e meios para levar a vida são o Direito à Vida!
  1. A Terra, desse modo, não pode ser vendida ou dada.
  2. A Terra deve ser mantida por toda a vida e passada aos parentes herdeiros, e assim para sempre.
  3. O Chefe é o custodiador de toda a Terra, seu principal dever sendo o de assegurar a justa distribuição e o uso correto da mesma.
  1. Todo dinheiro, presentes, impostos e outras formas de doação ao Chefe ou Rei, ainda pertence ao povo e pode ser usado em socorro ou ajuda de pessoas em tempos de necessidade
  2. Todo membro do Estado tem o direito de apelar desde cortes mais baixas até as mais altas ( Em alguns Estados apelos podem ser feitos mesmo da Suprema Corte Real para a “Mãe da Nação”)
  1. O procedimento é desde a Corte das Vilas, para a Corte Distrital, Para a Corte da Província, até a Corte Real.
  2. Tais apelos são permitido somente em casos de crimes maiores ( aqueles que afetam toda a sociedade)
  1. Pagamentos por ofensas contra indivíduos, vão para a vítima, não para a Corte.
  1. Parte do dinheiro recebido pelo condenado, retorna para ele, como expressão de boa vontade e desejo de amizade renovada.
  2. Outra parte é ofertada para a Corte de Julgamento como uma apreciação à justiça.
  1. Realeza, em termos africanos, significa “Valor Real”, o mais alto em caráter, sabedoria, senso de justiça e coragem.
  1. Aquele que fundou a nação por unir muitos em uma unidade deve ser o real condutor, guia e servidor de seu povo.
  2. O povo, em honra ao fundador da nação, daí pra frente deverá escolher Chefes vindos da família do fundador ( da sua mesma linhagem), se os herdeiros passarem pelos teste que refletem o caráter do Fundador, cujo espírito supostamente foi herdado.
  1. O problema de um é o problema de todos. Ninguém deve viver em riqueza enquanto os demais não tem nada. Todos são irmãos e irmãs e responsáveis por seus irmãos e irmãs.
  2. Graus etários, grupos por idade e associações são a base social, econômica, política e militar para (1) Educação básica e avançada(formal); (2) papéis de responsabilidades individuais e grupais; (3) treinamento policial e militar; (4) divisão de trabalho; (5) ritos de passagem e atividade social. Em sociedades sem Chefes, os graus etários são os órgãos de ação social, política e econômica.

    Sociedade Secreta Feminina Bondo, Serra Leoa

    Sociedade Secreta Feminina Bondo, Serra Leoa

  3. O “preço da noiva”, ou “dote da noiva”, é o presente que significa aceitação mútua de parte das duas família e é entendido como uma segurança na ligação entre as famílias que pode ser devolvida em parte, em caso do casamento não dar certo. ( O dote tende a estabilizar a instituição do casamento. Isso não é “compra da esposa”.)
  4. A comunidade como um todo é concebida como Um Partido, a oposição pode ser conduzida por líderes de várias facções.
  1. Facções de oposição são geralmente formadas por diferentes graus etários:
  2. Debates podem continuar indefinidamente até que se alcance consenso.
  3. Um a vez que o consenso é alcançado e a vontade da comunidade determinada, toda oposição aberta ao censo comum deve cessar.
  4. Aqueles cuja oposição é tão séria a ponto de não aceitarem as novas proposições e decisões, deve “ pegar pista”, seja individualmente ou em grupos sob um líder ( pra formar um novo Estado ou o núcleo de um)
  1. Em uma guerra, o objetivo não é matar o inimigo, mas sobrepujá-lo através do medo, se possível, com gritos de guerra, barulho ensurdecedor, máscaras horrendas, etc. Quando o assassinato é inevitável, deve ser reduzido ao mínimo possível. Em caso de vitória, algum artifício deve ser criado para possibilitar ao inimigo retirar-se com honra.
  2. A Religião Africana, não é um credo, ou artigo de fé, mas o modo de pensar e agir do seu povo, refletindo-se em todas as instituições e de grande significação constitucional.
  1. Politicamente, o papel do Chefe enquanto Sacerdote Supremo, que apresenta as orações do povo para os ancestrais no além mundo, é a origem real de sua influência.
  2. Socialmente, os Ritos de Passagem, músicas e danças ( pra afastar o mal, etc.), bem como purificações e oferendas- são importantes.
  1. Desde que prevaleçam a Religião e a Lei Moral e a sobrevivência da raça, um homem pode ter mais que uma esposa. Para ele, é proibido dormir ou cohabitar com sua esposa durante os nove meses de gravidez ou durante o período de amamentação. (1) A esposa não pode preparar alimentos em período menstrual (2), o marido é estritamente proibido de ter qualquer tipo de relação com uma esposa, durante o período estabelecido para a segunda esposa.
  2. O supremo comando das forças de luta está subordinado ao conselho, não ao Rei. Se o Rei se tornar Comandante em Chefe, será através de eleição do conselho devido às suas qualificações como General ou Comandante de Campo, essa posição termina com o fim da guerra e as forças armadas retornam ao seu status formal sob o Conselho ou, mas diretamente sob seus Chefes de batalhão. Não existem exércitos permanentes.
Mulheres Etíopes carregando água

Mulheres Etíopes carregando água

Direitos Fundamentais da Pessoa Africana

Os pontos seguintes são um número representativo de Direitos Humanos também compilados de Leis e constituições tradicionais do Continente Africano).

Todo membro da comunidade tem direito a:

  1. Igual proteção da lei.
  2. Moradia
  3. Terra suficiente para garantir a sobrevivência individual e familiar
  4. Assistência em tempos de dificuldade
  5. Petição por releitura de acusações
  6. Criticar e condenar qualquer ato das autoridades ou novas leis propostas. (Grupos de oposição, em algumas áreas chamados de “ Os Jovens”, são reconhecidos pela lei.)
  7. Rejeitar a decisão final da comunidade sobre qualquer assunto e se retirar da comunidade sem ser molestada. O direito a rebelião e retirada.
  8. Julgamento justo. Não deve haver nenhuma punição maior do que a ofensa e nenhuma fiança maior que a possibilidade de pagamento. Isso é determinado pela riqueza e status do indivíduo e de sua família.
  9. Indenização por acidentes ou perdas causadas por outros.
  10. Cuidado familiar e comunitário em caso de doença ou acidentes.
  11. Ajuda especial do Chefe em circunstância além das capacidades familiares.
  12. Educação geral incluindo moral e boas maneiras, direitos e responsabilidades familiares, Família Estendida e organização social, vizinhanças e fronteiras, agricultura e comércio, cálculo mental rápido, e história familiar, clãnica e Nacional.
  13. Aprendizado e treinamento para uma vocação útil.
  14. Herança definida pelo costume.
  15. Desenvolver habilidades individuais e exercitar qualquer conhecimento desenvolvido.
  16. Proteger sua família e entes queridos, mesmo por meios violentos, se tal se fizer necessário e possa ser justificado.
  17. Proteção da lei moral em respeito a seus cônjuges e crianças – um direito que nem o Rei pode violar.
  18. De todos, mesmo dos cativos, de avançar às mais altas posições no Estado, desde que tenha o caráter e a habilidade necessária.
  19. Proteção e tratamento como hóspede em território inimigo.
  20. Justo e igual parte em todos os benefícios conquistados pela comunidade, se o mesmo contribuiu com toda a sua potencialidade e habilidade, não importando quem e como alguns foram capazes de contribuir mais.

Esses Princípios Constitucionais e práticas foram mantidos e preservados pelos Pretos em migração por toda parte do Continente Africano. Esse fato é um dos mais destacáveis da História do Povo Preto – mais destacável porque mesmo quando aquelas sociedades foram empurradas para a barbárie, mantiveram seus fundamentos, era após era, como se estivessem preservando as últimas centelhas de suas próprias vidas. Mesmo no Egito, onde o impacto asiático e europeu foi maior, a Constituição Africana não pode ser completamente destruída.

Chancellor Williams

Tradução UNIAPP

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Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Mosiah Garvey

Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Mosiah Garvey, Três paradigmas afro-americanos para uma análise afro-brasileira.

Por Fábio Mandingo

Apresentação

O presente momento vivido pela sociedade brasileira, no que diz respeito ao discurso e à prática oficiais e civis sobre a questão racial, assemelha-se em muitos aspectos, à situação experienciada nos Estados Unidos da América durante o período imediatamente posterior à Guerra Civil e à Abolição da Escravidão, e que se estende até os anos que se seguiram à 1ª Guerra Mundial, quando se consolidaram as leis referentes à segregação racial em grande parte do país, marcando a opção do estado americano por manter um regime político de discriminação e supremacismo branco oficialmente referendado, dando fim a uma época de efervescência política e cultural no qual o discurso igualitário reminiscente da guerra civil, possibilitou ao negro americano o vislumbre de uma sociedade onde os caminhos da comunidade pudesse ser determinado por sua competência e por seus próprios anseios.

Com pelo menos 130 anos de atraso, somente agora a sociedade e o estado brasileiro começam a discutir a implementação de políticas específicas voltadas para a integração do povo negro à sociedade, partindo da compreensão de um processo histórico marcado pelo prejuízo e desfavorecimento conseqüentes do passado colonial escravista, propondo-se a buscar meios para minorar os efeitos negativos dos 350 anos de exploração econômica escravocrata e da marginalização posterior a uma abolição desassistida.

De modo semelhante ao período americano citado, podemos atualmente assistir à florescência de diversos grupos e tendências de movimentos negros no Brasil, que se entendem aptos para atuarem enquanto condutores deste processo de transformação, de modo a garantir a compreensão do contingente populacional negro como portador de uma identidade histórica-cultural, ressaltando a importância de sua contribuição pra a formação do país. Homens e mulheres, jovens e velhos negros, unem-se no esforço de elaborar as políticas capazes de capitanear a construção de uma sociedade racialmente includente,fortalecida pelo respeito à diversidade étnica, atenta à riqueza das diferentes contribuições fornecidas pelos grupos raciais que formam a sua população.

Elaboração de um novo tempo, ou a intensificação de antagonismos que precedem as épocas totalitárias? Tendo em vista que toda a busca por reformas sérias e reais conduzem à explicitação das contradições imanentes à sociedade capitalista, demandando daqueles que são privilegiados por sua estrutura uma reação proporcional à força dos anseios populares, ficamos atentos aos ensinamentos da história, que nos mostra a tendência à manutenção das estruturas de dominação constituídas, e a busca por eliminação, adaptação e/ou estagnação das forças transformadoras surgidas no ventre desta sociedade.

Nesse sentido, o presente trabalho visa apresentar ( além de breves biografias coligidas a partir das obras referenciais) as proposições de três importantes líderes afro-americanos, Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Mosiah Garvey, elaboradas no contexto do período pós-abolição e concernentes a três diferentes vias de integração do povo negro na sociedade americana, examinar o contexto em que essas proposições foram colocadas, suas repercussões e conseqüências, bem como, abrir a possibilidade de uma análise comparativa à atual realidade racial brasileira.

Sonhos, Ilusões e Frustrações.

A Guerra Civil Norte-Americana, que durou de 1860 a 1865, colocou frente à frente no campo de batalha, duas concepções políticas antagônicas e aparentemente inconciliáveis. Para além do caráter puramente bélico e de disputa por hegemonia, próprios de qualquer guerra, a guerra civil americana pretendia encarnar o embate entre eras históricas opostas, representadas na estagnação conservadora do sul escravocrata, confrontada com a pressão industrializante do norte e suas tendências democratizantes, próprias das contradições intestinas de um capitalismo nacionalista forte, em processo de implementação.

A sociedade sulista se assentava na imutabilidade de um sistema agrário de grandes propriedades, no poder patriarcal extremo, e na mão-de-obra escrava. Os estados algodoeiros do sul, foram os que mais receberam africanos escravizados durante o período do tráfico, formando o que se chamou de o “ Cinturão Negro” , em referência ao grande contingente populacional africano. Essa peculiaridade étnica vai determinar todas as facetas dessa sociedade, preocupada em preservar o status quo de supremacismo branco inquestionável, que se reflete como pressão, através de todas as inter-relações sociais. A mão-de-obra negra foi a principal geradora da riqueza do sul, pilar sobre o qual as famílias brancas tradicionais mantiveram um padrão de vida senhorial, dedicado à política e ao ardor religioso, bem como, a reforçar todo o aparato ideológico, responsável pela justificação da hierarquia racial, além de introjetar a “normalização” dessa hierarquia. O discurso oficial sulista, referendava a perfeição de sua imobilidade e a segurança de uma sociedade na qual as coisas ” estavam em seus devidos lugares”.

A modernização industrial em desenvolvimento no norte ( e com pretensões de se estender por toda a União), representava o esboroamento desse contexto semi-feudal, por torná-lo obsoleto, incompatível com as imposições de um sistema capitalista incipiente, que previa a introdução do regime de trabalho assalariado, a formação de um mercado consumidor, o liberalismo econômico e a conseqüente mercantilização da esfera política, direcionada agora, mais por interesses financeiros que por princípios morais. O capitalismo nortista trazia ainda em seu bojo, os germes das reivindicações populares gestadas no seio de uma classe operária em formação e intensificadas dentro do contexto urbano, impensáveis e inaceitáveis para os aristocratas brancos do sul.1, Socialismo, direitos da mulher, sindicatos, igualdade racial, democracia, eram assuntos tabu, a respeito dos quais o sul idílico deveria ser protegido, posto que representariam a ruína da família tradicional protestante, de seus valores e de sua organização social.

Em outra frente, norte e sul travavam um embate político e econômico relativo à hegemonia sobre as novas terras conquistadas do México no Oeste, e o modelo de ocupação a ser implantado: O agrário escravocrata, ou o industrial capitalista. Além disso, os estados do norte tencionavam impor uma política protecionista responsável por pesadas tarifas alfandegárias contra os produtos industrializados ingleses, de modo a favorecer a indústria nacional. Para os produtores de algodão, no entanto, a relação comercial com a Inglaterra, era extremamente favorável, sendo que os ingleses representavam o seu maior mercado consumidor, e perdê-lo era um risco que não estavam interessados em correr.

Entre todos esses fatores, a abolição do trabalho escravo era o ponto em que esse antagonismo recrudescia mais criticamente. A escravidão era a base do sul agrário, mas sua extinção seria a base da implementação do capitalismo industrial, e nesse sentido, o discurso referente à abolição, tornou-se a principal bandeira dos estados do norte, respaldados pela atuação de intelectuais, artistas, humanistas e políticos abolicionistas. Os sulistas, por seu lado, acusavam os do norte de tentarem solapar as bases da sua sociedade e, sustentando o discurso sobre a necessidade da manutenção do supremacismo branco2, buscavam garantir politicamente a continuidade do regime de escravização negra. Calorosos debates eram travados no campo intelectual,numerosas obras foram escritas tendo na libertação dos escravizados o seu tema. Muitos foram também os negros alforriados que contribuíram ativamente com o movimento abolicionista.

Em 1860, a Guerra se inicia, quando os estados do sul se separam da União, e em 1862, o Presidente Abraham Lincoln assina o Abolition Act, a libertação dos cativos do sul. Essa medida teve como pano de fundo, a incorporação dos negros nos exércitos da União, que até então vinham sendo batidos pelas tropas confederadas. A entrada dos ex-cativos na guerra vai determinar a mudança nesse quadro, e a vitória do norte em 1865. Os sulistas sofreram derrotas esmagadoras e tiveram o sistema escravista desestruturado, além da imposição de aceitar a legislação nortista, relativa não somente às questões raciais, mas à organização política e à economia, agora abertas ao poder do capital.

A “Reconstrução”

“40 Acres de terra e uma mula”, era a promessa do governo para cada família negra do sul. O período imediatamente posterior à guerra, conhecido como “reconstrução americana”, que vai de 1865 a mais ou menos 1880, com o início do processo de reforma agrária e democratização política, e, no sentido contrário, de 1880 até 1920, quando as leis segregacionistas do sul, baseadas no conceito de “diferentes, mas iguais” são nacionalmente referendadas, jogando por terra o sonho dos dez milhões de americanos negros de construir uma nação sobre um projeto de igualdade real, de direitos e oportunidades, é o período concernente à nossa pesquisa. È durante esse período que os afro-americanos vão atuar de forma mais marcante, no que se refere a elaborar proposições e movimentos voltados para a integração do negro na sociedade americana, seja a partir de um ponto de vista de políticas públicas seja a partir da auto-determinação enquanto comunidade étnica específica.

Booker T. Washington, W.E Dubois e Marcus Mosiah Garvey, são três dos mais destacados nomes desse período turbulento, no qual a manipulação política e a ação terrorista de organizações racistas, como a Klu Klux Klan, boicotaram e minaram por dentro o projeto de “reconstrução”, consolidando o regime de segregação racial que perdurou no sul até meados dos anos sessenta do séc XX, quando os movimentos por direitos civis conseguiram derrubá-lo.

 
O Pioneirismo Americano

Um ponto fundamental no processo de “reconstrução” do sul, e que serve como objeto importante para reflexão, no quadro da problemática abordada, é o pioneirismo americano no tocante à discussão de projetos de políticas públicas oficiais direcionadas para a integração da população negra na sua sociedade, em se tratando de um país multirracial. Independendo de uma análise crítica aprofundada do teor dessa discussão, ou mesmo de um questionamento quanto a sua condução e tendências, o fato a ser ressaltado é o de que o recém formado estado americano viu-se na contingência de determinar políticas oficiais para a integração do povo negro americano, incluindo nessa discussão, pontos cruciais, como reforma agrária, emprego, educação e representação política. A admissão estatal, do contingente populacional negro enquanto organismo diferenciado política e historicamente no contexto nacional, a compreensão do processo de escravização enquanto fator de degradação econômica e social, reforçada pelo discurso democratizante e igualitário da recente constituição americana e da própria guerra civil em si, criaram o campo no qual projetos de discriminação positiva puderam ser vistos como veículos óbvios para a inserção social dos negros, e o fato de equipararem-se, em quantidade, tanto os projetos oficiais para essa inserção, quanto aqueles gerados pela própria comunidade ( refiro-me à criação de escolas, grupos de mulheres, iniciativas econômicas coletivas, etc.), remarca a postura assumida por essa comunidade, de não entender-se enquanto mero objeto social, mas sim sujeitos de seus próprios caminhos, postura essa que vai dar a tônica do povo afro-americano, mesmo nos momentos em que o aparato legal do estado volta-se com a determinação de Paralisar os seus movimentos.

Ainda durante a própria guerra civil3 o “ Freeman´s Bureau” , surge como via estatal para a integração dos negros recém libertados e seguindo o Freeman´s Bureau, diversas outras agências governamentais foram instituídas com esse objetivo, visando coordenar o processo de reconstrução, abertura de escolas, distribuição de terras, financiamento e crédito, bem como processos eleitorais e judiciais. Em 186* surge a primeira universidade para negros, em 186* os primeiros hospitais. As obras de Washington, Dubois e Garvey, vão se situar justamente no início, meio e fim, respectivamente, dessa era de explosão de perspectivas, de ilusões, de sonhos e de frustrações. São três modelos diferenciados para o posicionamento e conduta do povo negro perante a sociedade americana (e vice-versa), construídos por três homens negros imbuídos no compromisso/missão de guiar o seu povo desde os grilhões da escravização até o conforto de uma cidadania plena. Três projetos historicamente entrelaçados e complementares, mas ao mesmo tempo antagônicos e em permanente conflito, que através dos tempos e ainda hoje, nos oferecem subsídios para enriquecer e facilitar discussões referentes às políticas raciais.

Booker T. Washington

O homem que mais tarde viria a ser conhecido como “o grande conciliador”, nasceu em 1856 em uma plantação de tabaco situada na Virgínia, ainda sob o regime de escravidão. Era filho de uma cozinheira negra com um agregado branco de uma das fazendas da cercania. Washington começou a estudar, antes mesmo que a proclamação da emancipação tornasse legal a educação para negros, carregando livros dos filhos do fazendeiro. Após a guerra, sua família muda-se para West Virgínia, onde trabalha e estuda. Aos 16 anos, acorre ao Hampton Institute, uma nova escola para estudantes negros. Trabalhando para pagar os estudos, Booker T. torna-se instrutor do Hampton Institute e depois de alguns anos, funda o seu próprio instituto educacional, o Tuskgee Institute, no Alabama, sendo seu diretor e principal mentor, transformando-se em um dos mais notáveis homens negros do seu tempo, além de educador respeitado. Foi o primeiro homem negro convidado para tomar um chá na casa branca e a ser recebido por um presidente (Theodore Roosevelt). Por conta de um discurso conservador e acomodado relativo à questão racial, Washington recebeu substancial suporte de brancos ricos e do próprio governo para o seu instituto, visto como fórmula ideal de resolução para a problemática étnica latente no sul dos Estados Unidos. Falece em 1915, aos 59 anos, alguns meses após liderar uma campanha de boicote contra o filme de W. Griffti “O Nascimento de Uma Nação”4.

Entre os três paradigmas abordados, a proposição de Booker T. Washington para a inclusão social do negro, aparece como sendo a mais moderada, e diria-se mesmo, a mais retrógrada, tendo em vista o grau de apelo democrático contido no discurso político da época. De todo modo, a posição de Washington é marcante na sua objetividade e no seu pragmatismo, mostrando-se viável e eficaz enquanto solução para uma delicada situação de impasse político e racial, onde os atos necessariamente tinham que ser pesados de acordo com suas conseqüências.

Para Booker T. Washington, não havia sentido em uma luta do povo negro por questões como igualdade racial, direitos eleitorais e civis, ou educação superior. Seus esforços deveriam estar direcionados ao resgate moral, e à emancipação econômica através do trabalho duro e da educação técnica profissionalizante. Segundo Washington, a formação universitária superior era completamente inútil, em se tratando de uma comunidade recém saída da escravidão, afundada na miséria financeira, no ócio, na marginalidade, no alcoolismo e na prostituição. Direitos de votar e de ser votado tornavam-se ridículos quando relativo a uma população afundada mortalmente em dívidas nos armazéns de alimentos e agiotas em geral, que emprestavam dinheiro e vendiam aos negros baseados nos dividendos das colheitas futuras, criando uma nova relação de trabalho sem renda, similar ao escravismo. No que se refere à igualdade racial, acreditava que: “em todas as coisas meramente sociais, podemos ser tão separados como os dedos das mãos, ainda que unidos em todas as coisas essenciais para o progresso mútuo”5, como declarou no discurso de 1895 “ O Compromisso de Atlanta”, feito para uma audiência bi-racial, no qual expõe os estamentos filosóficos do seu projeto.

Obviamente, essas proposições foram aclamadas como sendo a solução ideal para o impasse sulista. Do ponto de vista da sociedade branca do sul, extremamente pressionada pelo liberalismo sócio-econômico nortista e interiormente pela intensa luta dos negros por igualdade de direitos, nem eles mesmos poderiam imaginar uma saída mais apropriada. O posicionamento de Washington, ao mesmo tempo em que se adequava às necessidades da industrialização incipiente, trazia um modelo de integração subalterna, que mantinha intocadas as estruturas da hierarquia racial sulista, abrindo as portas para o progresso sem, no entanto, esboçar questionamentos referentes ao supremacismo branco, enfim, mantendo as coisas em seus devidos lugares!

O Instituto Tuskgee foi o seu laboratório, onde colocou em prática suas propostas educacionais, obtendo resultados consideráveis e granjeando a admiração de muitos brancos nortistas, impressionados com sua política de distanciamento da questão racial, sendo que milionários como John Rockfeller e Andrew Carnegie eram doadores freqüentes do Instituto, que em 1905: “Era uma instituição com 8 mil estudantes vindos de 19 estados, com setenta e nove instrutores, 14 mil acres de terra e trinta edifícios, entre grande e pequenos, uma propriedade de U$ 280.000”6. Apesar da sua postura “conciliadora”, Washington não deixou de ser alvo de críticas dos movimentos negros, que o viam como uma espécie de traidor, por desviar a comunidade das lutas por direitos civis. Por outro lado, na medida em que os brancos recuperavam o controle das instituições sulistas, conquistando o respaldo legal para o recrudescimento das tendências segregacionistas, até mesmo um modelo “ conciliador” de integração, passava a ser desinteressante, posto que antagônico ao restabelecimento da linha racial no tocante às relações sociais, contrário a qualquer tipo de autonomia por parte dos negros. Além disso, a dependência de suporte financeiro para a manutenção do seu projeto, determinou a debilidade do mesmo, no momento em que muitos financiamentos foram suspensos, por conta dos re-arranjamentos políticos e econômicos entre o norte e a “nova aristocracia industrial sulista”. Em seus últimos anos, foi testemunha do sucateamento da sua instituição, o que no entanto, não foi capaz de obliterar a sua importância enquanto projeto de emancipação econômica para o povo negro, nem o seu alcance como modelo prático sua construção.

W.E.B.Dubois

Em 1903, Dubois compõe a abertura do seu livro, “ As Almas da Gente Negra”, afirmando que “ O problema crucial do séc XX, será o problema racial”. Se enquanto estudante, intelectual, educador e líder político, devotou todos os seus dias em prol do fortalecimento do povo negro, empenhando-se completamente na luta por seus direitos, na América e mesmo internacionalmente, ressaltando as raízes racialmente determinadas do quadro de prejuízo social em que se encontravam as populações de cor, Dubois foi, acima de tudo, um democrata, e nesse sentido, um racial democrata. O fio condutor e base da sua luta racial, não foi mais que uma luta por integração da população negra na sociedade americana, e todos os seus esforços foram direcionados para que essa integração se desse da forma mais equânime possível, alçando o homem negro à categoria de cidadão pleno, em igualdade de direitos e deveres com todos os demais componentes do organismo social norte-americano. De todo modo, Dubois não se privou, em sua obra, do exercício da teorização sobre mecanismos que pudessem conduzir o povo negro, desde a escravidão à cidadania, através de políticas públicas voltadas para a sua inclusão social, valendo-se ressaltar, a constância da idéia de cidadania plena7, presente mesmo na construção desses mecanismos de discriminação positiva.

Sua obra é um marco no que diz respeito à história e à sociologia do negro na América, tendo sido um dos primeiros autores a lançar um olhar científico e acadêmico sobre temáticas concernentes à própria história americana, como o tráfico negreiro, tema da sua monografia para Harvard, e a reconstrução do Sul, no pós-guerra. Foi um dos educadores mais respeitados do seu tempo, tendo alcançado reconhecimento internacional. Orador eloqüente, capaz de angariar as simpatias das multidões, articulador político, poeta e pensador, manteve por toda a vida a crença de que a absorção do povo negro na nação americana, tornaria-a definitivamente uma das mais poderosas do mundo.

W.E.Dubois, nasceu em uma pequena vila em Massachussets, no ano de 1868. Estudou na Fisk University, indo terminar sua graduação em Harvard, tendo sido o primeiro afro-americano a receber o título de PHD da respeitada universidade francesa. Tornou-se professor da Atlanta University em 1897, e em 1903 escreveu “As Almas da Gente Negra”, sua principal obra e um dos mais importantes livros já escritos sobre a realidade do negro na América. “Souls of Black Folks”, conduz o leitor a um mergulho profundo na psicologia de um povo, cuja própria personalidade encontrava-se cingida pelo choque entre a sua auto-percepção e a negação imposta pela escravidão e o supremacismo branco. História, sociologia, cultura, educação, política, cada um dos capítulos que compõem o livro, apresentam uma abordagem acadêmica e documental das facetas da experiência afro nos Estados Unidos, baseada principalmente, no entanto, na sua vivência enquanto educador. Analisa as políticas utilizadas para a reconstrução sulista desde o início da Guerra Civil, criticando ferrenhamente a política de acomodação e subalternidade de Booker T. Washington, ao mesmo tempo em que, no livro, expõe as premissas do seu projeto para o negro e sua inserção.

Como líder político, Dubois organizou o 1º Congresso Panafricanista Internacional em 1900, e em 1905 foi um dos fundadores do “Niagara Movement”, que mais tarde daria origem ao NAACP, um dos principais grupos representantes da comunidade negra americana durante todo o séc XX e até os dias de hoje. Depois de várias décadas de militância, Dubois mudou-se para o Gana, na áfrica, onde pretendia finalizar a sua obra magna, uma enciclopédia sobre a história da África. Dubois faleceu sobre o solo africano em 1963, no mesmo dia em que 250.000 pessoas marchavam sobre Washington D.C., com Martim Luther King JR., durante a luta por direitos civis.

W.E.Dubois, desejou abolir legalmente a linha racial enquanto determinante sócio-econômico nos Estados Unidos da América, e acreditava ser dever do próprio estado americano, criar os meios para que os afro-descendentes fossem integrados à sociedade sem nenhuma distinção ou estigma, a partir de políticas públicas com esse fim, baseando sua luta em três pontos sobre os quais era irredutível:o direito de voto, a igualdade civil e o direito de educação superior de acordo com as capacidades dos indivíduos. Discordou publicamente do posicionamento conciliador de Booker T. Washington, em propor uma educação industrial para os negros e em manter intacta a estrutura racista da sociedade do sul8. Segundo Dubois, essa postura condenaria o seu povo a uma eterna condição de inferioridade civil e alienação política, dando na mão dos brancos o papel de condutores dos seus destinos e responsáveis por tomarem decisões em seu lugar. Seu sonho era ver o negro integrado como legítimo cidadão americano, e o caminho através do qual vislumbrava esse objetivo, era a luta por poder político pelas vias democráticas da representação eletiva, do voto e do direito de legislar. Os jovens negros deveriam ser preparados para uma educação superior, para que pudessem disputar em pé de igualdade os postos governamentais e cargos de proeminência no cenário político nacional. Ainda em “As Almas da Gente Negra”, Dubois expõe sua teoria batizada de “Talented Tenth”, segundo a qual os povos em geral, possuem um décimo entre os seus indivíduos, que pelo seu talento nato, são capazes, a partir das condições apropriadas, de conduzir positivamente os seus demais concidadãos. Contextualizando, Dubois advoga que se a décima parte talentosa do povo negro pudesse ser plenamente preparada através da mais refinada educação erudita, nas mais variadas áreas do conhecimento humano, seria o suficiente para que, de volta à comunidade, guiassem todos os outros homens e mulheres negro(a)s pelos caminhos do conhecimento e da “civilização”, tornando-os aptos para conviver com plenitude em um regime democrático, somando as suas potencialidades `as dos demais povos que compunham a nação. Lutador abnegado durante toda a sua vida, podemos entender, no entanto, um certo teor de decepção quanto à “democracia americana”, contido na sua opção de alinhar-se, já em idade avançada, às fileiras do Partido Comunista dos Estados Unidos. Do mesmo modo, o auto-exílio na terra dos seus antepassados, aonde veio a passar os últimos anos da sua vida, não deixam de representar a confissão de um homem consciente de ter cumprido o seu papel em uma batalha árdua e exaustiva, digno merecedor da paz e do descanso de uma terra maternal, a Gana Independente governada por Kwame N´Krumah.

W.E. Dubois, como veremos adiante, homem proeminente no cenário político americano, possuiu também, obviamente, sua cota de críticos e opositores. No nosso projeto de estudo, Dubois está situado em uma posição chave, posto que sua vida e obra se interrelacionam conflituosamente, tanto com as de Booker T., quanto, posteriormente, com a de Marcus Mosiah Garvey, e é justamente esse tríplice conflito que vai nos proporcionar o entendimento dialético das três obras visibilizadas em seus diversos aspectos. No entanto, independente de qualquer novo ângulo de análise que o explicitamento dessas discordâncias possa nos conduzir, encontraremos as marcas de um homem brilhante e devotado ao ideal de progresso do seu povo, inevitavelmente presente em qualquer trabalho ou estudo que se arvore em focalizar os mais brilhantes representantes do povo negro no Séc XX.

Marcus Garvey

Marcus Mosiah Garvey Jr., nasceu em St. Ann Bay, Jamaica, em 17 de Agosto de 1887. Seu pai era um Mestre marceneiro que apesar de não possuir educação formal, possuía uma ampla biblioteca o que lhe proporcionou o prematuro contato com as letras. Garvey estudou na Escola Anglicana de Gramática, ainda em St Ann Bay, graduando-se também no Ginásio da Igreja da Inglaterra. Aos catorze anos, a instabilidade financeira de sua família obrigou-o a deixar a escola e tornar-se aprendiz das artes gráficas com seu avô, Mr. Burrowes. Nesse período Garvey pode utilizar-se da grande biblioteca do avô, alem de adquirir os conhecimentos jornalísticos que posteriormente seriam necessários para a preparação de jornais e revistas.

Aos vinte anos Garvey já se tornara mestre gráfico, mas o seu envolvimento com as greves por melhores salários durante a crise que assolou a Jamaica na primeira década do séc XX, custou-lhe o emprego e a carreira na Benjamim Company, em Kingston. De todo modo, esse momento, marca o início do reconhecimento de Marcus enquanto líder para os trabalhadores de descendência africana, e através da fundação de dois jornais o “Garvey’s Watchman” ( Observatório de Garvey) e o “ Our Own” ( Nosso Mesmo), consegue fundos para devotar todo o seu tempo para o trabalho editorial e a organização da população negra da Jamaica. Durante os anos da década de 10, Garvey viaja para a Costa Rica, Panamá, Nicarágua, Honduras, Colômbia e Venezuela, trabalhando como peão em fazendas de banana e cana de açúcar. Nessas viagens, testemunha a realidade de exploração, humilhação e miséria em que se encontravam os trabalhadores negros e o povo negro em geral em todo o Caribe e parte norte da América do Sul. Alem disso, privou contato com diversos homens que haviam sido soldados nos exércitos europeus durante as guerras colonialistas, após a Conferência de Berlin em 1884, quando uma Europa faminta por matérias primas africanas, dividiu o controle do continente negro entre Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Bélgica, Espanha e Portugal. Esses homens haviam sido recrutados pelos regimentos das Índias Ocidentais e utilizados para expulsar as populações nativas e roubar os seus territórios, e puderam relatar a Garvey a situação degradante vivenciada em África.

Em 1914, Garvey Funda a Universal Negro Improvement Association , UNIA ( Associação Universal para o Progresso Negro). Entidade que seria por toda a sua vida o carro chefe de suas atividades enquanto liderança negra. Durante os anos de 1912 e 1913, Garvey havia viajado para a Inglaterra, e durante essa estadia pôde aprofundar os seus conhecimentos sobre história da África Antiga, recursos naturais, política internacional e colonialismo, mantendo uma estreita relação com o intelectual egípcio Duse Mohamed Ali. Em 1915, a convite de Booker T. Washington, viaja para os Estados Unidos com o intuito de conhecer de perto o Instituto Tuskgee, fundado por Booker T., cujo modelo Garvey pensava em adaptar para a Jamaica. No entanto, Washington viria a falecer em Novembro de 1915 e Garvey somente consegue chegar aos Estados Unidos em Marco de 1916. Após alguns meses de contato, Garvey decepciona-se com as lideranças negras norte-americanas e começa a viajar por todos os estados, palestrando, discursando e fundando sedes da UNIA. Essas sedes, chamadas de “salas da Liberdade”, eram espaços pra encontros dominicais, aulas, reuniões políticas, shows, festas, distribuição de alimentos e caridade aos sem teto. Em 1919, a Unia funda a Black Star Line Company, uma frota de navios de transporte coletivo interamericano, em resposta às leis de segregação e aos maus tratos nos navios convencionais. Em 1920, organiza a convenção Internacional de Pessoas Negras no Mundo, realizada em Nova York, com o tema “África Para os Africanos”, contando com a participação de milhares de representantes do povo negro. Entre outras coisas, a UNIA foi responsável pela fundação da “Corporação de Empresas Negras” em 1919, com o intuito de criar a semente de um capitalismo negro e garantir que empresas negras pudessem suprir todas as necessidades usuais da comunidade, como lanchonetes, lavanderias, rouparias, publicações, etc. A corporação foi fundadora da primeira fábrica de bonecas negras que se tem noticia. Em 1920, o conselho executivo da UNIA, debruçou-se também sobre a idéia de um projeto de repatriação de negros africanos para a África, projeto que não foi à frente devido a pressão exercida pelo estado americano sobre o governo da Libéria, no sentido de impedir sua realização.

Obviamente, o projeto da UNIA e de Garvey, em sua essência, o soerguimento da raça negra enquanto poder político e econômico autônomo, sobre as bases de uma unidade cultural etnocêntrica e um discurso de nacionalismo africano, tornara-se uma pedra no sapato, não somente do governo dos Estados Unidos9, mas também das próprias lideranças negras americanas democratas e mesmo de esquerda, comprometidas com o discurso de integração e acomodação da população negra enquanto cidadãos americanos. Ainda mais se considerarmos que por volta de 1926, a UNIA era representada por 725 sedes nos Estados Unidos e por 271 outras através do mundo, incluindo algumas em solo africano totalizando mais que sete milhões de afiliados, que gerenciavam um patrimônio de vários milhares de dólares.

Foram justamente essas lideranças negras norte-americanas, principais responsáveis pela incansável campanha conduzida contra Garvey e UNIA, que reforçada pelo Governo Federal, culminaria com a prisão de Marcus Garvey em 1925 sob a acusação de fraude postal, e sua deportação em 1927, após dois anos e nove meses de cárcere. Garvey continuou, no entanto, com o seu trabalho na Jamaica e em outros países, até que um derrame cerebral, paralisou todo o lado direito de seu corpo em 1940. Garvey veio a falecer um mês depois, no dia 10 de junho de 1940.

“ Perguntei: Onde esta o governante negro, onde esta o seu rei e o seu reino?” “ O seu presidente, seu pais e seu embaixador?” “ Sua marinha, seu exercito, seu líder?” “ Não pude achá-los e então eu declarei: Eu ajudarei a fazê-lo!!”10

Marcus Mosiah Garvey, não tinha nada a ver com o sonho americano, e sua chegada aos Estados Unidos teve o efeito atordoante de um terremoto. Muito desse impacto se deve diretamente a força da sua personalidade, era um homem de ação, imbuído na missão de fazer o seu tempo. Um preto forte, retinto, acostumado a assumir o papel de liderança desde os catorze anos de idade, quando coordenava o trabalho de dezenas de homens adultos nas oficinas gráficas do Sr Burrowes. Garvey estava impressionado com o que vira em suas viagens pelo Caribe e América do Sul, e mais ainda com os relatos que ouvira durante sua estadia na Inglaterra, sobre a realidade do massacre colonial em África. Havia um sentimento de urgência em sua mente, responsável pelo contato com Booker T. Washington, cujo livro “Up From Slavery” inspirara em Garvey o desejo de implementar na Jamaica algo semelhante ao Tuskgee Institute. Foi o próprio Washington quem o convidou e financiou para que visitasse Tuskgee, mas quando Garvey desembarca nos Estados Unidos em março de 1916, já faziam vários meses que Washington falecera no inverno de 1915.

Marcus, no que tange ao nosso estudo, não representava nem a postura conciliadora de Booker T. Washington sulista, e nem o negro democrata integracionista encarnado por W. E. Dubois e o NAACP. Era fundamentalmente um homem negro do hemisfério sul, posteriormente compreendido como 3º mundo, região sobre a qual os Estados Unidos já ensaiavam a sua política de hegemonia imperialista, tendo se apossado militarmente da região onde fora construído o Canal do Panamá, em 1913, um ano após intervir na Nicarágua, em 1912. Os Estados Unidos ainda ocuparam o Haiti em 1915 e Santo Domingo em 1916, e, além disso, o exército americano apoiara as forças sul-africanas, no controle das áreas do sudoeste do continente.

Garvey não alimentava ilusões de que tal projeto político pudesse incluir em suas entranhas, vias para que o povo negro alcançasse o status de cidadania ou uma posição de isonomia social, a partir da qual pudesse desenvolver livremente o seu potencial, com direito à condução do seu próprio destino. Para ele, o homem branco nunca abriria mão de sua posição de privilégio. Acreditava que o povo negro deveria optar por construir uma relação de respeito através da conquista de poder, e de um poder direcionado, não para o direito de tornar-se branco dos raciais-democratas, mas para o direito de construir suas próprias estruturas, suas próprias nações, se necessário fosse, devendo-se ressaltar ser a idéia de retorno à África uma das temáticas recorrentes do discurso de Garvey, o que não o afastou, no entanto do exercício da construção do poder negro, onde quer que estivesse11. Para isso seria necessária, a estruturação de um movimento de capitalismo negro muito proximamente similar às organizações financeiras/comerciais que imperavam entre as comunidades italianas, irlandesas, alemães e judias, entre outras, e que iriam se tornar o modelo das relações raciais na América. Esse modelo estabelece um determinante racial para as relações entre investimento-produção-comércio-emprego-consumo, que possibilita a circulação de renda e lucro dentro da própria comunidade, apta para posteriormente reinvestir esse lucro, gerando melhorias coletivas, além de incrementar a unidade cultural e os laços de solidariedade entre determinado povo.

A poderosa oratória do líder jamaicano atraía aos milhares os negros americanos que fugiam em massa da nova onda racista que assolava o Sul, bem como os negros do Norte, cada vez mais desesperados de que conseguiriam conquistar desenvolvimento através de políticas parlamentares, em um regime marcado pela corrupção e pelo supremacismo branco. Todos estavam eletrizados com o discurso do homem que bradava para as multidões: “O novo negro não tem medo!, “África para os Africanos!”, Um povo, uma missão, um destino!”, “Erga sua poderosa raça!” Garvey foi um dos principais precursores e divulgadores do nacionalismo negro e do panafricanismo, doutrina que pregava a união de todo o povo negro, em África e na diáspora, em prol do resgate de sua herança histórica e cultural, para além de quaisquer fronteiras ou diferenças lingüísticas.

Incluía o povo negro do mundo em um projeto bem maior que a simples reivindicação de melhorias sociais. Para Garvey era evidente a necessidade de que o controle político econômico e militar do continente africano estivesse nas mãos dos próprios africanos para que se operasse a reconstrução do continente enquanto lar e referência do seu povo, de modo a que seus filhos não mais necessitassem mendigar aceitação na sociedade branca, mas que pudessem relacionar-se em pé de igualdade, respeitados em suas diferenças, com qualquer outro povo sem que a sua integridade fosse ameaçada ou questionada12. Garvey representou o sonho e as frustrações da classe trabalhadora negra em desenvolvimento e suas palavras e ações permanecem vivas e poderosas até os dias atuais, tendo influenciado toda uma geração de lideranças negras, como Malcom X, os Panteras Negras, Abdias do Nascimento, e mesmo os principais líderes dos movimentos independentistas que eclodiram em África desde meados dos anos 50, como Kwame N’Krumah, Sekou Touré, Patrick Lumumba, Julius Nyerere, Ahmed Ben Bella, Kallel Abdel Nasser e Hailé Selassieh, sobre o qual Marcus Garvey profetizou sua coroação em 1925.

Booker T. Washington- W.E. Dubois – Marcus Garvey: Três Paradigmas negros em conflito.

O primeiro dos homens sobre os quais lançamos o nosso interesse, enquanto líder negro capaz de elaborar uma proposição sistemática original para (tentar)resolver o problema do povo negro recém saído da escravidão americana, Booker T. Washington, homem negro sulista, desenvolveu suas perspectivas tendo muito influído sobre elas, a particular situação de opressão e pressão racial historicamente solidificadas nessa região e polarizadas a partir de um processo de “democratização forçada” conduzida pelas tropas yankees durante o período da reconstrução. É notável, em toda a sua obra, a preocupação em propor um modelo de inclusão do povo negro na sociedade americana, buscando ao mesmo tempo, não ferir o tecido das relações raciais ali estabelecidas durante os séculos escravistas. Partindo do pressuposto de que a preguiça e a degradação moral, somados à pobreza e à falta de capacitação técnica eram responsáveis pelo atraso social e empecilho para o desenvolvimento da comunidade negra13, Washington vai questionar (e negar) a importância das lutas por direitos civis, de voto e de educação superior para uma comunidade que não teria preparo para utilizá-los em proveito próprio. Através de uma rígida postura moral, da capacitação técnica industrial e do trabalho, o negro americano forçaria o branco,segundo Washington, a uma reavaliação de suas concepções negativas, o que acarretaria um novo processo na história das relações raciais. Booker T. Washington estabelece um paradigma de integração do negro na América que retira do branco e joga sobre as costas negras, toda a responsabilidade da condução desse processo, abrindo o precedente para que quaisquer falhas posteriormente existentes em suas relações, pudessem ser justificadas mais pela imperícia do povo dominado do que às pressões do dominador, ou ao próprio desequilíbrio imanente à essa relação. Se em um determinado momento, o seu projeto de cidadania subordinada caiu como uma luva para o sistema branco sulista, vimos que posteriormente a sua proposição por autonomia econômica, mesmo que desprovida de qualquer discurso de conteúdo racial, tornou-se um problema para o supremacismo etnocêntrico e foi facilmente paralisado a partir da dependência estrutural do seu projeto.

Dubois, em contrapartida, foi um homem clássico (“Um grego”, para utilizar a expressão de Joaquim Nabuco em sua aclamação póstuma de Machado de Assis14) Como vimos, sua formação acadêmica, que incluía o título de Phd em Harvard, era um privilégio de difícil acesso mesmo para a maioria da população branca. A crítica ferrenha direcionada contra Booker T. e posteriormente contra Marcus Garvey, demonstra fundamentalmente a solidez de sua crença nos valores presentes no discurso burguês democrata em voga no norte dos Estados Unidos, bem como nos princípios humanistas e progressistas legados de sua formação acadêmica positivista.Tanto a cidadania subordinada proposta por Washington quanto o desenvolvimento em separado fundamentado na afirmação étnica defendido por Garvey, representavam retrocessos no que se refere à legislação e feriam os princípios igualitários presentes na constituição americana que o permitiam vislumbrar uma sociedade na qual a linha de cor fosse definitivamente superada através da ação política das lideranças negras e de seus aliados brancos.

Nesse sentido, podemos compreender tanto em algumas colocações de Garvey: “Os maiores homens e mulheres do mundo foram pessoas que se auto-educaram fora da Universidade, com todo o conhecimento que a Universidade oferece, e você tem a oportunidade de fazer a mesma coisa que um estudante universitário faz: Ler e estudar!”15 como de Washington: “quando eu era apenas um garoto, eu vi um jovem homem negro que tinha gasto vários anos na escola, sentado em um barraco ordinário no Sul, estudando uma gramática francesa. Notei a pobreza, a desarrumação presentes no barraco, não obstante o seu conhecimento em francês e outros assuntos acadêmicos.”16um certo grau de desconfiança e mesmo de desdém, quanto às possibilidades de que a educação acadêmica pudesse oferecer à comunidade negra, vias para a superação de seus problemas imediatos. Há uma rusga classista que no entanto não se interpõe ao conteúdo racial e político da discussão. Dubois não poderia admitir contra os seus princípios, a atitude conciliadora do discurso de Washington: “Queremos sufrágio para todos os homens, e queremos agora! Nós somos Homens, queremos ser tratados como homens e nós venceremos!” como afirmou no manifesto do Niagara Movement, predecessor do NAACP, dez anos depois do discurso de Booker T. Washington desaprovando a luta dos negros por igualdade de direitos civis. De toda maneira, tanto Dubois quanto Marcus Garvey, vão afirmar em determinados momentos de suas obras a importância de Washington e do seu trabalho no Tuskgee Institute valendo lembrar, que todo um capítulo de “As Almas da Gente Negra” é dedicado a analisar e combater as proposições de Washington.

Em 1915, porém, o homem de Atlanta falecera, alguns anos depois, a luta que se estabeleceria entre Garvey e Dubois não estaria sujeita a reconciliações póstumas e o caráter racial de suas posições assim o determinaria. Dubois, assim como Washington, acreditava na necessidade de um processo de profilaxia social que capacitasse para a inclusão a comunidade negra na sociedade americana e que esse processo deveria ser conduzido pelos “dez por cento mais talentosos” representantes da raça, que preparados por uma refinada educação acadêmica, atuariam como certa vanguarda educacional, cultural e política junto aos seus aliados brancos, no sentido de resgatar os outros noventa por cento da população negra, internados na degradação da ignorância e da marginalidade social. Para Garvey, pelo contrário, havia a necessidade de afirmar a origem da situação de degradação em que se encontrava o povo negro no mundo, no próprio processo colonial escravista, responsabilizando o branco por esse quadro17 e determinando, através do resgate da história ancestral particular do negro, a necessidade de uma ação própria contra as representações vigentes desse processo, baseando-se em uma luta autônoma por auto-determinação liderada e coordenada pelo próprio negro.

Nesse contexto, Garvey expressaria a sua decepção relativa a seu primeiro contato com as lideranças negras norte-americanas: “Eu imediatamente visitei alguns assim chamados ‘líderes negros’, apenas pra descobrir, após um estudo próximo deles, que eles não tinham nenhum programa, mas eram meros oportunistas que viviam de sua liderança, enquanto as pessoas pobres estavam indo para o fosso”18 .Desgostaria-se do mesmo modo, com o discurso moderado do NAACP, inquietando-se quanto à neutralidade da postura racial integracionista assumida pela organização, que segundo Garvey, era conduzida na direção do embranquecimento cultural e psicológico, que conteria mesmo uma pigmentocracia na qual os negros mestiços de pele mais clara seriam privilegiados e favorecidos no que se refere a ocupação de cargos de comando. Tal idealização do embranquecimento, já havia sido uma das principais fontes de atrito para Garvey na Jamaica, e encontrá-la repetida na América serviu-lhe para remarcar sua ruptuara com a social democracia negra, como para reforçar sua opção pelo nacionalismo africano.

O sucesso estrondoso de suas pregações e da UNIA entre a massa afro-americana, iria ser base para uma relação de conflito permanente entre Garvey e as demais organizações sócio-políticas negras ou voltadas para o público negro, como os grupos socialistas, sociais-democratas, o NAACP e posteriormente o incipiente Partido Comunista Americano e as Igrejas Evangélicas, que tinham em comum, a insistência na tentativa de cooptação de membros da UNIA para suas fileiras. A UNIA atingiu proporções espantosas, mantendo até hoje a marca de ter sido a mais numerosa organização negra da história mundial, chegando a mais de oito milhões de membros espalhados por todo o mundo. Esse crescimento, obviamente foi acompanhado por movimentos proporcionais de oposição, que culminaram em suas estratégias, no indiciamento de Marcus Garvey em 1925 sob a acusação de fraude postal e com a campanha pública “Garvey deve partir!” encampada principalmente por eminentes representantes do NAACP. Segundo a Senhora Garvey, esposa e principal mantenedora do legado de Marcus Garvey, Dubois teria sido o mais empedernido oponente de Garvey, tomando para si, a missão de livrar a América dos perigos do extremismo racial. Em 1927, Garvey era deportado, como já vimos, após mais que dois anos de cárcere. Por ironia da história, como conclusão da presente exposição de paradigmas, o Professor Willian Eduard Dubois, iria passar os seus últimos anos e dias de vida no Gana independente liderado pelo assumidamente garveísta Kwame N’kruhmah.

Considerações Finais

Independentemente dos oportunos alertas pós-modernistas contra a debilidade da crença em uma história positivista na qual os fatos desencadeiam-se mecanicamente em uma relação progressiva e conseqüente na direção de um ideal evolutivo, não poderíamos privar-nos de expressar a nossa compreensão de que a história, se não é uma simplificada “esteira de sucessões”, é um campo de movimento contínuo, no qual o choque dialético de suas contradições intestinas vai determinar processualmente as feições assumidas por uma realidade histórico-temporal específica. Desse modo, a análise historiográfica das micro-relações que se desenrolam através das compartimentações de um todo, crescem em importância se considerarmos a permanência de uma implicação de influências e confluências entre o todo e os seus compartimentos, e isso é óbvio. Por esse motivo, nos detivemos em examinar, no presente trabalho, a gênese histórica das modernas relações políticas e raciais e suas principais vertentes ideológicas nos Estados Unidos da América, durante as últimas décadas do séc XIX e primeiras décadas do século XX, gênese essa cujas expressões iriam marcar e referendar todo o desenvolvimento dessas relações através do século XX até os dias atuais.

Se entendemos a importância de meramente apresentar aos interessados, informações sobre um determinado cenário histórico, que por razões ideológicas nos são deliberadamente indisponibilizadas, a intenção que nos move, é a de oferecer subsídios ao leitor brasileiro, para uma discussão política e racial que leve em consideração experiências anteriores e referenciais, no sentido de minimizar o atraso de mais de um século dessa discussão colocada no Brasil, pelo menos a nível oficial, aberto e bilateral. A propensão de tratar como nova a matéria “relações raciais e estado”, resume não somente um profundo desrespeito às mobilizações históricas do povo negro no Brasil e no mundo como também mascara cinicamente a responsabilidade histórica e deliberadamente consciente das elites brasileiras geradoras e mantenedoras dessa realidade negativa. Faz-se portanto, necessário, o conhecimento objetivo das experiências históricas nacionais e internacionais relativas às relações raciais que possam nos instrumentalizar contra uma discussão superficial e mistificadora.

No Caso norte-americano, veremos as tensões referentes aos axiomas paradigmáticos raciais preponderantes na primeira metade do séc XX, estenderem-se da mesma maneira através de toda a segunda metade (ainda que com outros personagens), até o momento em que a ação avassaladora das forças repressivas, somadas ao crescimento econômico e à unidade nacional empurrada através da paranóia contra supostos inimigos externos conseguem pulverizar os movimentos negros organizados diminuindo-lhes a pujança e o apelo popular de suas mobilizações ( com exceção talvez apenas da Nação do Islam e o seu Ministro Louis Farrakhan). Quanto a isso podemos afirmar que o governo americano, em aspectos gerais vai assumir, como paradigma oficial para as relações raciais o modelo de Booker T. Washington, traduzido como uma “Concessão” de cidadania para o negro através de medidas paternalistas e controladas, nomeadamente a abertura de escolas e universidades específicas voltadas majoritariamente para a formação técnica e industrial, a melhoria nos serviços públicos e de moradia ( ínfimas, se contextualizadas nos padrões americanos), algum acesso de crédito e um discurso permanente pautado na paciência e na resignação confiante em dias melhores. Por outro lado, a movimentação conduzida pelo reverendo Martin Luther King Jr. De caráter integracionista e legalista, no qual a não violência e a crença na mudança através da ação política democrática são carros chefes do seu discurso, encaixa-se perfeitamente no modelo anteriormente defendido por Dubois, enquanto que o radicalismo fundamentalista de Malcom X e dos Panteras Negras é afilhado declarado de Marcus Mosiah Garvey e UNIA.

 

Não obstante as permanências facilmente notáveis das três correntes de pensamento estudadas, é indispensável a compreensão de que tratam-se de paradigmas que não conseguiram alcançar (e manter) posições hegemônicas em suas sociedades, e menos ainda, servirem como motores propulsores para transformações estruturais profundas quanto às determinações raciais da sociedade norte-americana, ainda que tenham podido revolver o solo apodrecido sobre o qual tais determinações se assentavam, ali deixando sementes, preparando terreno para o crescimento de eventuais revoluções.

Assim posto, temos o privilégio de dispor de um quadro para análise que nos oferece projetos e métodos, aplicações, erros e acertos testados e avalizados (ou não) na prática, homenageados e proscritos estejam os heróis e traidores dessa novela real que é a história. Ressaltando o óbvio, não podemos deixar de receitar àqueles que se interessem em pensar as modernas relações raciais brasileiras utilizando como referência a experiência afro-americana, o cuidado no processo de contextualização, com as especificidades de cada uma dessas realidades, separadas não somente por mais uma América, mas por diversas características próprias e diferenciadas. A permanência cultural africana no Brasil, a proporção demográfica e a realidade econômica,são alguns desses pontos diferenciais, cuja compreensão me parecem imprescindível. Além disso, devemos reforçar com o Sr. Abdias do Nascimento, o fato indiscutível de que a experiência diaspórica do negro brasileiro, traz em si, elementos ricos e suficientes que lhe servem de materiais e referência para o seu auto-entendimento, bem como para a elaboração teórica de um eventual processo de transformação social, assunto no qual o referido autor, entre outros guerreiros, é virtuosamente competente. Nesse sentido, qualquer outras referências apenas somam-se às pré-existentes de modo a referendar a unidade além-fronteiras do vínculo latente entre a humanidade negra e seus descendentes em África e na diáspora.

Esperamos que com esse trabalho atinjamos o nosso objetivo de proporcionar aos irmãos negros o acesso ao conhecimento de conhecimento sobre nós mesmos, meta até a qual, somos permanentemente desviados, no sentido de continuarmos tutelados pelos poderes euro-brasileiros constituídos bem como por alguns “assim chamados líderes negros”, para os quais a nossa dependência intelectual, econômica, organizacional e psicológica é conveniente.

Agradecemos aos Orixás e aos nossos antepassados por esse Axé latente, aos guerreiros, às mães e aos meninos.

Sou Eu, Sou Eu…!

Bibliografia

Editorial do Jornal Chattanooga News, 5 de Agosto de 1927

Dubois, W.E.;”As Almas da Gente Negra”RJ, Lacerda Editores, 1999

FBI MEMO; John Edgar Hoover to Special agent Ridgel, 11 de Outubro de 1919

UCLA “The Marcus Garvey and UNIA Papers Project” Washington,

Booker T. “The Awakening Of The Negro” Publicado originalmente em “The Atlantic Monthly” Setembro 1896

Rydel, Roy “About W.E. Dubois: Reviewing the Review”, in “People’s Weekly World”, 9 de novembro de 1996

Diop, Cheikh Anta ; “Origem dos Antigos Egípcios”em “A África Antiga”Coordenado por G Mokhtar; São Paulo: Ática( Paris); Unesco 1983

Nascimento, Abdias do ; “O Quilombismo” Ed. Vozes-Petrópolis 1980

Franklin, John Hope; “Raça e História-Ensaios Selecionados, 1938-1988” Ed Rocco, RJ, 1999

Lowy, Michael, “A Teoria da Revolução no Jovem Marx” Ed Vozes, Petróplis 2002

Gramsci, Antônio; “A Formação dos Intelectuais” Ed Achiamé, RJ, 2000

Marx: Sociologia, Organização de Octavio Ianni e Florestan Fernandes, Ed Ática 1979

Black Diáspora – A Global Black magazine, n.o 3 “110 Years of Marcus Garvey” Jamaica, 1987 Caribe, Vol IX, n.o 1, Special Commemorative Issue “Marcus Garvey, Jamaica 1987

 

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Publicado originalmente em: http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/marcus-garvey-booker-t-wahington-e.html

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Marcus Garvey e a Associação Universal do Progresso Negro (UNIA)

Marcus Mosiah Garvey

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO POVO NEGRO DO MUNDO

         “Consistindo num preâmbulo, doze causas para uma denúncia, e uma lista de cinquenta e quatro demandas específicas, a Declaração dos Direitos do Povo Negro do Mundo foi a principal afirmação política produzida na primeira das convenções anuais da Associação Universal do Progresso Negro. Adotada em 13 de agosto de 1920, após uma série de relatos de injustiça prevalecendo através do mundo Negro, o documento foi assinado por 122 delegados e observadores. Desde então ele foi reproduzido periodicamente no orgão oficial de notícias da associação, o Mundo Negro. Elementos da Declaração – a qual foi descrita como Magna Carta da Raça – também aparece no Catecismo Universal Negro. Para Marcus Garvey, o documento era “a propriedade de cada Negro em cada canto do mundo” e não deixava dúvidas sobre a determinação das pessoas Negras racialmente conscientes em preservar seus “direitos humanos … a todo custo”. Panaficana em sua conceituação e escopo, a declaração reflete um interesse misto em questões nacionalistas e universais. Demonstrando que o separatismo Negro era consoante com a corrente luta pelos direitos civis, a filiação à UNIA era provida de um hino nacionalista (artigo 40), uma bandeira (Artigo 39), e uma lógica de protestos pós 1ª Guerra Mundial por decisões de políticas públicas como a do mandato da Liga das Nações indicando fiscalização das colônias formais Alemãs na África para a França e Grã-Bretanha. (Artigos 15 e 45). O texto reproduzido aqui é de Philosophy and Opinions of Marcus Garvey (Filosofia e Opinião de Marcus Garvey) Vol. 2, Ed. Amy Jaques Garvey (New York: Universal Publishing House, 1925; reprint, New York; Atheneum, 1974), com permissão.

Após a deportação de Garvey, em 1927, o Garvey Club deu continuidade ao movimento garveysta nos EUA.

Após a deportação de Garvey, em 1927, o Garvey Club deu continuidade ao movimento garveysta nos EUA.

1920 – DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO POVO NEGRO DO MUNDO

Associação Universal para o Progresso Negro

Fica resolvido que as pessoas Negras do mundo, através de seus representantes escolhidos na convenção reunida em Liberty Hall, na cidade de Nova York e Estados Unidos da América, em 1º de agosto à 31 de Agosto, no ano de nosso senhor, Mil novecentos e vinte, vão protestar contra violações dos direitos e injustiças que eles têm sofrido nas mãos de seus concidadãos brancos, e estamentar o que eles demandam justo e de direito, assim como o tratamento proposto às demandas de todos os homens no futuro.

Nós denunciamos:

I. Que em nenhum lugar do mundo, com poucas exceções, pessoas Negras compartilham de igual tratamento que pessoas brancas, ainda que na mesma situação e circunstâncias, mas, ao contrário, são discriminadas e tem seus direitos de seres humanos negados por não outra razão que sua raça e cor. Nós não aceitamos satisfeitos sermos hospedes em albergues e abrigos no mundo por não outra razão que nossa raça e cor.

II. Em certas partes dos Estados Unidos da América é negada à nossa raça o direito de um julgamento público concedido a outras raças quando acusadas de crime, mas somos linchados e queimados por multidões, e tal tratamento brutal e desumano é praticado mesmo contra nossas mulheres.

III. Aquelas nações européias que nos segmentaram e tomaram posse de praticamente todo o continente da África, e os nativos que foram forçados a ceder suas terras à alienígenas e tratados na maior parte das instâncias como escravos.

IV. Na porção sul dos Estados Unidos da América, apesar de cidadãos sob a Constituição Federal, e em alguns estados quase iguais em número à população branca e na qualidade de donos de terra e contribuintes, nós temos, no entanto, negada toda a voz na concepção e administração de leis e somos taxados sem a representação de governantes estaduais, e ao mesmo tempo compelidos ao serviço militar na defesa do país.

V. Nas ferrovias públicas e transportes coletivos na porção sul dos Estados Unidos nós somos segregados e compelidos a aceitar acomodações separadas e inferiores e induzidos a pagar o custo de acomodações de primeira classe, e nossas famílias são freqüentemente humilhadas e insultadas por homens brancos bêbados que habitualmente passam pelos vagões segregados com destino ao vagão de fumantes.

VI. Aos médicos de nossa raça são negados os direitos de atender seus pacientes em hospitais públicos de cidades e estados onde eles residem em certas partes dos Estados Unidos. Nossas crianças são forçadas a freqüentar escolas segregadas e por períodos menores que as crianças brancas, e os fundos das escolas públicas são igualmente divididos entre escolas brancas e de cor.

VII. Nós somos discriminados e impedidos de chances iguais de obter salário para o sustento de nossas famílias, e muitas vezes temos nossa admissão recusada em sindicatos, e praticamente em todo lugar são pagos menores salários que aos homens brancos.

VIII. No serviço civil e nas secretarias nós somos discriminados e forçados a sentir que ser uma pessoa Negra na Europa, América e Caribe é equivalente a ser uma forasteira e leprosa dentre a raça humana, não importa qual o caráter e realizações que uma pessoa Negra possa ter.

IX. Na ilhas Britânicas e outras Ilhas das Índias Ocidentais e colônias, Negros são secreta e ardilosamente discriminados, e negados de direitos plenos no governo aos quais os cidadãos brancos são empregados, nomeados e eleitos.

X. Que nosso povo nestes lugares são forçados a trabalhar por salários menores que o padrão médio de homens brancos e são mantidos em condições repugnantes para o gosto civilizado e bons costumes.

XI. Que muitos atos de injustiça contra os membros de nossa raça ante a tribunais nas respectivas ilhas e colônias são de tal natureza que criam desgosto e desrespeito ao senso de justiça do homem branco.

XII. Contra todo tipo de tratamento inumano, não cristão e não civilizado que nós, aqui e agora, enfaticamente protestamos e invocamos à condenação de toda a humanidade.

Mobilização popular da UNIA

Mobilização popular da UNIA - Universal Negro Improvement Association

Com o intuito de encorajar nossa raça por todo o mundo e estimulá-la a um destino mais elevado e grandioso, nós demandamos e insistimos na seguinte Declaração de Direitos:

1 . Que seja do conhecimento de todas as pessoas em todo lugar, todos os seres humanos foram criados igualmente e fazem jus aos direitos à vida, liberdade e à busca da felicidade, e por causa disto nós, os devidamente elegidos representantes das pessoas Negras do mundo, invocando a ajuda do justo e todo poderoso Deus declaramos todos os homens mulheres e crianças de nosso sangue em todo o mundo cidadãos livres, e alegá-los como livres cidadãos da África, a Terra-mãe de todos os Negros.

2. Que nós acreditamos na suprema autoridade de nossa raça em todos os aspectos raciais; que todas as coisas são criadas e dadas ao homem como posse comum; que devem haver uma distribuição equitária e partilha de todas essas coisas, e em consideração ao fato que como uma raça nós estamos agora privados destas coisas que são moralmente e legalmente nossas, nós acreditamos que é certo que todas estas coisas devam ser adquiridas e mantidas por qualquer meios possível.

3. Que nós acreditamos que o Negro, como qualquer outra raça, deve ser governado pela ética da civilização, e, por conseguinte, não deveria ser privado destes direitos ou privilégios comuns a outros seres humanos.

4. Nós declaramos que os Negros, por qualquer meio que formem uma comunidade entre sí mesmos, devem ser cedidos os direitos de eleger suas próprias representações para atuar no legislativo, tribunais de justiça, ou tais instituições que possam exercer controle sobre uma particular comunidade.

5. Nós afirmamos que o Negro é merecedor de justiça imparcial ante todos os tribunais e equidade em qualquer país em que possa se encontrar, e quando isto é negado a ele graças a sua raça ou cor, tal negação é um insulto a raça como um todo e deve ser lamentado por todos os Negros.

6. Nós declaramos que é injusto e prejudicial aos direitos dos Negros nas comunidades onde eles existem em números consideráveis serem julgados por um juiz e júri composto totalmente por uma raça alheia, mas em todos os casos membros de nossa raça são merecedores de representação num júri.

7. Nós acreditamos que qualquer lei ou prática que tende a privar qualquer africano em sua terra ou os privilégios de livre cidadania dentro de seu país é injusto e imoral, e nenhum nativo deve respeitar tal lei ou prática.

8. Nós declaramos tributação sem representação injusta e tirana, e não deve haver obrigação da parte do Negro em obedecer a arrecadação da taxa por qualquer corpo legislativo ao qual ele é excluído e negado de representação graças a sua raça e cor.

9. Acreditamos que qualquer lei especialmente dirigida contra o Negro para seu prejuízo e que o mantém alijado por causa de sua raça ou cor é injusta e imoral, e não deve ser respeitada.

10. Nós acreditamos que todos os homens têm direito ao respeito humano comum e que a nossa raça não deve de maneira nenhuma tolerar qualquer insultos que possam ser interpretados como desrespeito à nossa raça ou cor.

11. Nós reprovamos o uso do termo “nigger”, tal como aplicado aos Negros, e exigimos que a palavra “Negro” seja escrita com um “N.” maiúsculo.

12. Acreditamos que o Negro deve adotar todos os meios para se proteger contra práticas bárbaras infligidas a ele por causa de sua cor.

13. Acreditamos na liberdade de África para o povo Negro do mundo, e pelo princípio da Europa para os europeus e da Ásia para os asiáticos; nós também exigimos a África para os africanos, em casa e no exterior.

14. Acreditamos no direito inerente do Negro de tomar posse de África e que a sua possessão sobre a mesma não será considerada como uma violação de qualquer reivindicação ou compra feita por qualquer raça ou nação.

15. Condenamos fortemente a cobiça das nações do mundo que, por agressão aberta ou esquemas secretos, tomaram os territórios e riquezas naturais inesgotáveis ​​de África, e nós registramos a nossa determinação mais solene de recuperar os tesouros e a posse do vasto continente de nossos antepassados.

16. Acreditamos que todos os homens devem viver em paz uns com os outros, mas quando as raças e nações provocam a ira de outras raças e nações pela tentativa de infringir seus direitos, a guerra torna-se inevitável, e a busca de alguma maneira para libertar a si mesmo e proteger os seus direitos ou herança torna-se justificável.

17. Considerando que o linchamento, a morte por incineração, o enforcamento ou suspensão por qualquer via de seres humanos é uma prática bárbara, uma vergonha e desgraça para a civilização, nós, portanto, declaramos que qualquer país culpado de tais atrocidades está fora dos limites da civilização.

18. Protestamos contra o crime atroz de açoitamento, flagelação e excesso de trabalho das tribos nativas de África e dos Negros por toda parte. Estes são métodos que devem ser abolidos e todos os meios devem ser tomados para evitar a continuação de tais práticas brutais.

19. Protestamos contra a prática atroz de, quando colocados nas prisões por uma raça alienígena, raspar a cabeça dos africanos, especialmente das mulheres Africanas ou indivíduos de sangue Negro, como punição por crime.

20. Protestamos contra distritos segregados, meios de transporte públicos separados, a discriminação industrial, linchamentos e as limitações dos privilégios políticos de qualquer cidadão Negro em qualquer parte do mundo por causa de raça, cor ou credo, e vamos exercer a toda nossa influência e poder contra essas práticas.

21. Protestamos contra qualquer punição severa infligida a um Negro, frente a uma punição mais branda infligida a outro de uma raça alienígena pela mesma ofensa , como um ato de preconceito e injustiça que deve ser ressentido por toda a raça.

22. Protestamos contra o sistema de ensino em qualquer país onde os Negros são negados os mesmos privilégios e vantagens que as outras raças.

23. Declaramos que é desumano e injusto boicotar Negros nas indústrias e no trabalho em qualquer parte do mundo.

24. Nós acreditamos na doutrina da liberdade de imprensa, e nós, portanto, enfaticamente protestamos contra a supressão de jornais e periódicos Negros em várias partes do mundo, e instamos os Negros em todos os lugares a empregar todos os meios disponíveis para evitar tal supressão.

25. Também exigimos a liberdade de expressão universalmente para todos os homens.

26. Vimos por este meio protestar contra a publicação de artigos escandalosos e inflamatórias por uma imprensa alienígena estrangeira criar conflitos raciais e a exibição de filmes que mostram o Negro como um canibal.

"O novo Negro não tem medo'

"O novo Negro não tem medo"

27. Acreditamos na auto-determinação de todos os povos.

28. Declaramos para a liberdade de culto religioso.

29. Com a ajuda de Deus Todo-Poderoso declaramo-nos protetores jurados da honra e da virtude de nossas mulheres e crianças, e comprometemos a nossa vida para a sua proteção e defesa em todos os lugares e sob todas as circunstâncias frente a erros e desmandos.

30. Exigimos o direito de uma educação sem limites e sem preconceitos para nós mesmos e para nossa posteridade para sempre [.]

31. Nós declaramos que o ensino, em qualquer escola por professores alheios a nossos meninos e meninas, que a raça alienígena é superior à raça Negra, é um insulto para o povo Negro do mundo.

32. Onde os Negros formam uma parte dos cidadãos de qualquer país, e passam no exame de serviço público desse país, nós declaramos que estes têm direito à mesma consideração que os outros cidadãos às nomeações em tal serviço público.

33. Nós vigorosamente protestamos contra o tratamento cada vez mais desleal e injusto concedido aos viajantes Negros em terra e mar pelos agentes e funcionários das estradas de ferro e companhias de navegação, e insistimos que por uma tarifa igual devemos receber os mesmos privilégios que os viajantes de outras raças.

34. Nós declaramos injusto qualquer país, Estado ou nação promulgar leis que tendem a dificultar e impedir a imigração de Negros livres em virtude da sua raça e cor.

35. Que o direito do Negro de viajar sem ser molestado por todo o mundo não seja abreviada por qualquer pessoa ou pessoas, e todos os Negros são convocados a ajudar um colega Negro quando assim molestado.

36. Nós declaramos que todos os Negros têm o mesmo direito de viajar o mundo como os outros homens.

37. Vimos por meio deste exigir que os governos do mundo reconheçam o nosso líder e seus representantes escolhidos pela raça para cuidar do bem-estar de nosso povo sob tais governos.

38. Exigimos o controle completo de nossas instituições sociais sem interferência por qualquer raça ou raças alienígenas.

39. Que as cores Vermelho,Preto e Verde são as cores da raça Negra.

40. Resolvido, que o hino “A Etiópia, terra de Nossos Pais, etc,” será o hino da raça Negra. . . .

41. Acreditamos que qualquer liberdade limitada, que priva um dos plenos direitos e prerrogativas de cidadania completa é apenas uma forma modificada de escravidão.

42. Nós declaramos que é uma injustiça para com nosso povo e um impedimento grave para a saúde da raça negar aos médicos Negros licenciados e competentes o direito de praticar nos hospitais públicos das comunidades em que residem, por nenhuma outra razão que não sua raça e cor .

43. Apelamos aos vários governos para que aceitem e reconheçam os representantes Negros que serão enviados a estes governos para representarem o bem-estar geral dos povos Negros do mundo.

44. Nós deploramos e protestamos contra a prática de confinar os presos jovens em prisões com adultos, e recomendamos que tais prisioneiros jovens devem aprender ofícios remunerados sob uma supervisão humana.

45. Está ainda mais resolvido, que nós, como raça de pessoas, declaramos a Liga das Nações nula e sem efeito no que se refere ao Negro, à medida em que visa privar os Negros de sua liberdade.

46. Exigimos de todos os homens sob nossa liderança apenas aquilo que nós mesmos faríamos, em nome da justiça; e nós apoiamos enfaticamente, para todos os homens, todos os direitos que reivindicamos aqui para nós.

47. Nós declaramos que nenhum Negro deve se envolver-se em batalha por uma raça alienígena, sem primeiro obter o consentimento do líder do povo Negro do mundo, exceto em uma questão de defesa nacional.

48. Protestamos contra a prática de convocar Negros e enviá-los para a guerra com forças alienígenas sem uma formação adequada, e demandamos que em todos os casos os soldados Negros recebam a mesma formação que os alienígenas.

49. Exigimos que as instruções dadas às crianças Negras nas escolas incluam o tema “História do Negro” para o seu benefício.

50. Exigimos uma relação livre e sem restrições comerciais com todo o povo Negro do mundo.

51. Declaramos a liberdade absoluta dos mares para todos os povos.

52. Exigimos que sejam dados a nossos representantes devidamente credenciados o reconhecimento apropriado em todas as ligas, conferências, convenções ou tribunais de arbitragem internacional sempre que os direitos humanos forem discutidos.

53. Proclamamos o dia 31 de agosto de cada ano como um feriado internacional para ser observado por todos os Negros.

54. Queremos que todos os homens saibam que vamos manter e lutar pela liberdade e igualdade de todo homem, mulher e criança da nossa raça, com as nossas vidas, nossas fortunas e nossa sagrada honra.

Estes direitos que acreditamos ser justificadamente nossos e adequados para a proteção da raça Negra em geral, e por causa dessa nossa crença que, em nome dos Negros 400 milhões do mundo, prometemos sobre e em defesa do sangue sagrado da raça e temos a honra de subscrever os nossos nomes como garantia da sua veracidade e fidelidade, na presença de Deus Todo-Poderoso, neste dia 13 de agosto, no ano de nosso Senhor de 1920.

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À esquerda, J. E. Hoover, futuro Diretor do FBI, que construiu sua carreira monitorando e combatendo organizações pretas.

 O honorável Marcus Garvey à direita, deportado dos EUA pelas maquinações de Hoover. Táticas similares seriam utilizadas décadas depois contra o Partido dos Panteras Negras.

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1919 – Memorando ao Agente Especial Ridgely
J. Edgar Hoover

Departamento de Justiça

Washington, D.C. 11 de Outubro, 1919

Memorando para Sr. Ridgely

Garvey sendo preso.

Garvey sofreu prisões, deportação e pelo menos um atentado orquestrado pelos "agentes da lei".

Eu estou transmitindo juntamente um comunicado que chamou minha atenção vinda do canal do Panamá, escritório de Washington, relativo às atividades de MARCUS GARVEY. Garvey é um Negro caribenho e em adição à suas atividades no empenho de estabelecer a Black Star Line Steamship Corporation (Corporação da Linha de Navios a Vapor Estrela Negra) ele também esteve particularmente ativo misturado a elementos radicais na cidade de Nova York agitando o movimento negro. Infelizmente, no entanto, ele ainda não violou nenhuma lei federal por meio da qual ele possa ser processado em razão de ser um estrangeiro indesejável, do ponto de vista de deportação. Ocorre a mim, no entanto, que através da nota de jornal anexa possa existir algum processo contra ele por fraude em conexão com sua propaganda da Black Star Line e por esta razão eu estou transmitindo o comunicado para sua devida atenção.

O que se segue é uma breve afirmação de Marcus Garvey e suas atividades;

Natural do Caribe e um dos mais proeminentes agitadores Negros em Nova York;
Ele é fundador da Associação Universal do Progresso Negro e da Liga de Comunidades Africanas;
Ele é o promulgador da Black Star Line e é o editor gerente do Mundo Negro;
Ele é um orador excepcionalmente bom, criando muito entusiasmo entre os Negros através das propostas de seus navios à vapor;
Em seu jornal o “Mundo Negro” a prática Soviética Russa é mantida e aqui está uma clara referência ao Bolchevismo.

Respeitosamente,
J.E. Hoover”

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Tradução: UNIAPP

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Quem Somos e o Que Queremos?

UNIAPP – Universidade Autônoma Preta Popular

QUEM SOMOS E O QUE QUEREMOS?

              “E se tem uma coisa que eu sei, é que um muro é apenas um muro e nada além disso. Ele pode ser derrubado… Eu acredito que um navio perdido, conduzido por pessoas cansadas e mareadas, ainda poder ser guiado para atracar em casa…

                                                                                                            – Assata Shakur

Com as bênçãos da nossa Ancestralidade e no esforço de continuar o trabalho e a luta de quem veio antes: Salve África! Salvem os Novos Quilombos!

Qual o corre?

Na sequência de nossas lutas pessoais e da luta ancestral, aprofundando o processo de reflexão e vivência da afrocentricidade, se mostrou evidente a necessidade da construção de mais espaços nossos para produção e transmissão de saberes liberados – fora da zona de controle da casa grande -, que permitam alicerçar a prática política de nosso povo; como resultado, criamos a UNIAPP – Universidade Autônoma Preta Popular.

A UNIAPP se constitui como uma entidade educacional de base teórica, epistemológica e estrutural afrocentrada, que atua nos campos de formação, pesquisa e difusão de saberes. A função é juntar o aprendizado das ruas, do que se ouve dos mais velhos e mais velhas, das quebradas, com aquilo que a gente consegue filtrar dos livros, da academia eurocêntrica, da internet, numa nova elaboração: um espaço nosso pra trocar e construir ideias e práticas e buscar meios de solucionar nossas questões enquanto povo preto – com África como centro, nossa história como referência e nós mesmos enquanto agentes. ‘A gente peragente’.

Como uma organização autônoma, apartidária e sem fins lucrativos, voltada para Educação Popular Afrocentrada, nosso objetivo imediato é revisitar a ciência e sabedoria multimilenar africana, a trajetória das sociedades de África e Diáspora e as experiências, passadas e presentes, das lutas de libertação para construir registros dessa herança e disponibilizá-los à comunidade através de Cursos, Tradução de obras, Disponibilização de vídeos e livros de referência, Palestras, Editoração e  produção de mídias, Intervenções artísticas, Grupos de estudos, etc. Nossa intenção ampla é, através deste objetivo, promover a emancipação global dos povos de origem africana no mundo.

O conhecimento, e a produção de conhecimento, como um meio de luta e uma ferramenta para a luta. Como nos ensina o honorável Marcus Mosiah Garvey:

              “Um povo sem o conhecimento da sua história, origem e cultura é como uma árvore sem raízes”.

                      RBGVermelhoPretoVerde.

UNIAPP

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Afirmação – Assata Shakur

Afirmação

Eu acredito no viver.
Eu acredito no espectro
dos dias Beta e do povo Gama.
Eu acredito no brilho do sol.
Em moinhos de vento e cachoeiras,
triciclos e cadeiras de balanço.
E eu acredito que sementes tornam-se brotos.
E brotos tornam-se árvores.
Eu acredito na mágica das mãos.
E na sabedoria dos olhos.
Eu acredito na chuva e nas lágrimas.
E no sangue do infinito.

Eu acredito na vida.
E eu tenho visto a parada da morte
marchando através do torso da terra,
esculpindo corpos de lama em sua trilha.
Eu tenho visto a destruição da luz do dia,
e visto vermes sedendos de sangue
sendo adorados e saudados.

Eu tenho visto os dóceis se tornarem cegos
e os cegos tornarem-se prisioneiros
num piscar de olhos.
Eu tenho andado sobre cacos de vidro.
Tenho comido corvos e pão estragado
e respirado o fedor da indiferença.

Eu tenho sido trancafiada pelos injustos.
Algemada pelos intolerantes.
Amordaçada pelos gananciosos.
E se tem alguma coisa que eu sei,
é que um muro é apenas um muro
E nada além disso.
Ele pode ser derrubado.

Eu acredito no viver.
Eu acredito no nascimento.
Eu acredito na doçura do amor
e no fogo da verdade

E eu acredito que um navio perdido,
conduzido por navegantes cansados e mareados,
ainda pode ser guiado para atracar
em casa.

Assata Shakur
Tradução UNIAPP

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